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Gustav Mahler / Fábio Mechetti (foto: Rafael Motta)

| Filarmônica de Minas Gerais inicia gravação da integral de Mahler

05/06/2017 - Por Barbosa Chaves

Liderada pelo maestro Fábio Mechetti, a orquestra mineira será a primeira do Brasil a gravar as dez sinfonias. O lançamento da ‘Quinta’ está previsto para o início de 2018

 

A lista de orquestras que gravaram as dez sinfonias – a Décima, inacabada – de Gustav Mahler (1860-1911) se resume às principais de Londres, Berlim, Viena, Amsterdam e algumas poucas americanas. Também não são muitos os maestros que se aventuraram a registrar em disco o extraordinário material sinfônico que Mahler deixou. Herbert von Karajan, Leonard Bernstein, Claudio Abbado, Pierre Boulez, Georg Solti e Simon Rattle estão entre os mais aclamados. No Brasil, nenhuma orquestra enfrentou o desafio de gravar a integral de Mahler. Até agora.

No início do ano, a Filarmônica de Minas, liderada pelo maestro Fábio Mechetti , deu o primeiro passo na longa e complexa trajetória para se tornar a primeira do país a registrar a obra sinfônica do compositor,  considerado um dos mais densos e brilhantes de todos os tempos, mas também um dos mais difíceis. Durante uma semana, a orquestra gravou a Quinta de Mahler, que por oscilar entre momentos de extrema alegria e outros de profunda melancolia, ficou conhecida entre os músicos como ‘sinfonia esquizofrênica’.

– A Filarmônica de Minas chegou a um ponto de evolução em que fazer gravações que desafiem a orquestra vai colocá-la em outro patamar – explica o maestro Mechetti, fundador, diretor artístico e regente titular da orquestra mineira que, em pouco mais de dez anos, já é considerada uma das melhores do país. Com o ciclo Mahler, que a Filarmônica já fez em concerto (com exceção da Oitava), a orquestra pretende consolidar essa posição e projetar a imagem de um grupo em permanente busca do aprimoramento de seus músicos.

Desafio

Em entrevista ao Tutti Clássicos  na sede da Filarmônica, a Sala Minas Gerais, uma das mais arrojadas da América Latina, o maestro frisou que não tem intenção de competir com as gravações que já estão no mercado, algumas delas, como as de Bernstein e Karajan, consideradas imbatíveis. O objetivo principal é estimular a orquestra a se superar.

–  Não há desafio maior para uma orquestra do que a integral das sinfonias de Mahler – arremata Mechetti. Segundo ele,  existem poucos compositores que, em cada peça do ciclo de sinfonias, oferece desafios tão variados para os diferentes naipes da orquestra.  Além de grande apuro técnico,  também é necessária a compreensão do contexto em que cada uma foi composta. – Mahler exige foco, concentração e muita dedicação.

Mahleriano convicto, o maestro paulista, que tem passagem por numerosas orquestras internacionais e hoje é radicado em Belo Horizonte, reconhece as dificuldades da empreitada, mas ficou animado com o resultado da gravação da Quinta, na Sala Minas Gerais, em fevereiro. Acredita que a orquestra alcançou um bom nível técnico e  está pronta para dar prosseguimento ao projeto gravando a Sexta, em outubro.

A Sinfonia No. 6 em lá menor, conhecida como ‘Trágica’, em quatro movimentos, exige muito estudo por parte do maestro e da orquestra. Apesar de não ser das mais conhecidas do compositor – talvez pelo caráter trágico, principalmente no final -, é considerada uma de suas melhores obras. Requer grande quantidade de instrumentos, incluindo alguns pouco usados, como o martelo, a celesta e o xilofone.

– O custo das gravações é alto e algumas sinfonias, como a Sexta, exigem mais instrumental. Só a Quarta e a Nona têm custos menores com músicos extras. Já no caso da Oitava, o grande desafio é a necessidade do órgão e, por isso, vamos deixá-la para o final na esperança de que até lá já tenhamos um na Sala Minas Gerais – explica o maestro.

O órgão terá que ser feito sob medida para a Sala Minas Gerais, o que leva cerca de dois anos. E pode custar até US$ 2 milhões. No Brasil, só o Municipal de São Paulo tem um órgão. A Sala já tem um espaço reservado e  um edital chegou a ser elaborado para a construção do instrumento. Aí veio a crise, o projeto foi adiado e a prioridade passou a ser a própria manutenção da orquestra, cujo orçamento anual é de cerca de R$ 26 milhões, boa parte aportada pelo governo de Minas. Mas a gravação da Oitava continua nos planos da Filarmônica.

A Oitava Sinfonia de Mahler é um dos maiores desafios do repertório orquestral clássico. Síntese de sinfonia, cantata, oratório e lied, exige enorme quantidade de músicos e vozes e, por isso, é conhecida como Sinfonia dos Mil. Foi a última regida pelo próprio compositor em Munique, em 1910. Não é muito executada, menos ainda, gravada. No Brasil, raramente é apresentada: uma das últimas vezes foi na Praia de Copacabana, em 2006, com a Orquestra Petrobras Sinfônica regida pelo maestro Isaac  Karabtchevsky, para um púbico estimado em 50 mil pessoas.

Sinfonias instrumentais

Enquanto o órgão não chega, a Filarmônica dá prosseguimento ao projeto com gravações de duas sinfonias por ano. Os discos serão lançados, provavelmente, com selo próprio à medida que ficarem prontos. O custo de cada gravação fica entre US$ 30 mil e US$ 40 mil, dependendo das exigências de cada peça. A direção das gravações é de Uli Schneider, que já trabalhou como Claudio Abbado e Lorin Maazel e com as filarmônicas de Berlim e Viena, e atualmente é responsável pela produção de gravação da Osesp.

– No ano que vem gravamos a Quarta e, sem seguida, as sinfonias instrumentais, Quinta, Sexta, Sétima, Nona e a parte da Décima.  No caso da Segunda e Terceira, que têm coro e solista, é preciso programá-las no momento adequado para que caibam no orçamento da orquestra – antecipa Mechetti. A Sinfonia n. 1 em ré maior, a Titã, está na agenda para 2019 e a gravação deve incluir o segundo movimento – andante – que foi excluído  pelo próprio compositor.  – O Blumine será incluído, não como parte da sinfonia, mas como adendo a ela, já que em suas revisões Mahler optou por deixá-lo de fora.

A Filarmônica tem oito discos gravados. O último – Guarnieri Nepomuceno –  traz versões primorosas de Valsas Humorísticas ,  de Alberto Nepomuceno (1864-1920), Concertino para piano e orquestra de câmara e Choro para piano e orquestra, de Camargo Guarnieri (1907-1993), com a pianista Cristina Ortiz. O disco foi gravado em junho de 2016,  na Sala Minas Gerais,  e saiu pelo Selo Sesc.

O próximo lançamento será a gravação da Quinta até o início do ano que vem, provavelmente também em streaming, dando início ao Ciclo Mahler.  Ainda não há prazo para a gravação da integral das sinfonias, mas isso não preocupa o maestro.

– Uma de cada vez – pondera Mechetti. – O importante, nesse caso, é o caminho. Usar o processo de gravação para melhorar a orquestra é o que interessa.