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Theatro da Paz / Foto: Eliseu Dias SECOM

| Festival Internacional de Música do Pará 2017 (4 a 11/6) tem João Guilherme Ripper como compositor residente

03/06/2017

Em artigo, o carioca fala das obras que estão sendo tocadas no evento, que celebra a trigésima edição

 

João Guilherme Ripper será o compositor em residência do XXX Festival Internacional de Música do Pará, o FIMUPA, que acontece de 4 a 11 de junho em Belém.  Ripper ministra ainda masterclass de composição e participa com os compositores portugueses Fernando Lapa e Alexandre Delgado de mesas redondas sobre temas ligados à criação musical.

Nesta edição, Heitor Villa-Lobos é o grande homenageado.  Entre os convidados estão o Quinteto Villa-Lobos, o Quarteto Radamés Gnatalli, a orquestra Johann Sebastian Rio, o fagotista Martin Kuuskmann (Letônia/EUA, indicado ao Grammy), o argentino Valentin Garvie (trompete) e o Duo Halász  (formado pela pianista brasileira Débora Halász, e pelo violonista alemão Franz Halász. A aberturam no domingo, às 11h, traz a Banda Sinfônica da Fundação Carlos Gomes ao Theatro da Paz com regência de Amilcar Gomes; às 20h30, a abertura oficial do evento tem a Orquestra Sinfônica Carlos Gomes, regência de André Cardoso (RJ) e, como solista a violinista portuguesa Matilde Loureiro. No programa, a suíte sinfônica Natividade, da cantata do mesmo nome escrita por João Guilherme Ripper em 2016 por encomenda do Teatro Amazonas.

A pedido de Tutti Clássicos, escreve sobre as suas obras executadas no FIMUPA.

Várias obras de minha autoria serão apresentadas durante o evento, incluindo Concerto a Cinco, com a Orquestra Jovem do Festival e  Quinteto Villa-Lobos; Cinco Poemas de Vinicius de Moraes, com a soprano portuguesa Carla Caramujo e a Orquestra Sinfônica do Festival dirigida por Tobias Volkmann; Kinderszenen, From My Window nº 1 e nº 3 com o Toy Ensemble de Portugal; Três Salmos para coro e piano com o Coro do Conservatório Carlos Gomes.

Natividade – Suíte Orquestral (2016)

A partir da cantata de mesmo título que escrevi para o Teatro Amazonas em 2016, criei uma suíte orquestral com os seguintes movimentos: “Presépio”, “Balé dos anjos”, “Festa dos pastores”, “Viagem dos Reis Magos”, “Paz na Terra” e “A magia do Natal”. É bom retornar ao clima de paz, harmonia e encantamento da história do nascimento de Cristo.

Cinco Poemas de Vinicius de Moraes (2014) – Quando recebi da Osesp a encomenda para escrever uma peça em homenagem ao centenário de Vinicius de Moraes, o título chegou pronto, poupando-me o sempre incômodo trabalho de batizar uma nova obra. Tinha ali o autor dos textos e o número de poemas com que deveria trabalhar: Cinco Poemas de Vinicius de Moraes. Mas o próximo passo – escolher aqueles que constituiriam o ciclo – revelou-se imenso. Romântico, místico, moderno, sonetista ímpar, autor teatral, letrista prolífico, autor de grandes clássicos da música popular: que poeta deveria ser o Vinicius de meus Cinco Poemas? Foram necessários vários mergulhos em sua Antologia Poética para descobrir que, a despeito dos diferentes estilos, métricas ou técnicas, em toda a sua poesia pode-se identificar a voz clara e inconfundível de quem escreve com a própria vida.

Seja a vida, então, a linha condutora! Sigo Vinicius em sua multiplicidade; chegam-me músicas diversas a partir das leituras de seus poemas. Começo o ciclo com uma declaração seminal, Uma Música Que Seja,  poesia em prosa, que anseia por uma música “como o ponto de reunião de muitas vozes em busca de uma harmonia nova”.

A segunda canção, O Poeta Aprendiz, é autobiográfica e fala do Vinicius criança, agitado e melancólico “de sonhar o poeta que quem sabe um dia poderia ser”.

Segue-se o conhecido Poema Dos Olhos da Amada, com sua escrita fluida e versos apaixonados, como foram derramados os amores de Vinicius: “Quantos saveiros, quantos navios, quantos naufrágios nos olhos teus…”

E quantos caminhos levam-me ao poema Lapa de Bandeira, a quarta canção. A poesia de Manuel Bandeira e o tema da amizade, constante na vida e obra Vinicius, misturam-se a todas as músicas da Lapa, que já foi berço do choro,  é o atual celeiro da música popular carioca e, last but not least, o bairro onde fica a Sala Cecília Meireles.  Mas, ao ler e reler o poema, todos esses motivos acabam à sombra da bela imagem/homenagem que descreve o simples apartamento do amigo-poeta: “Porém, no meu pensamento, era o farol da poesia brilhando serenamente”.

Escolho fazer de A Partida a grande celebração que encerra poética e musicalmente o ciclo de canções. Vejo o poeta descrevendo um fim que passa ao largo da tristeza, carnavalizado e transformado na viagem para uma estrela.  Ao escrever a música, carregada de percussão, procuro recriar a atmosfera de um ritual afro, parte importante de sua mitologia plural. O poema termina com o verso “no oco raio estelar libertado subirei”. Sabe Vinicius que em sua eterna viagem arrasta multidões encantadas no rastro de sua poesia.

From My Window nº 1 (2011) – Primeira obra da série From My Window que traduz musical e poeticamente a natureza pujante Rio de Janeiro. Os três movimentos são auto descritivos: Biking by the sea, Sunset e Bossa-Nova. Foi escrita originalmente para oboé , viola e piano e ganhou nova versão para oboé, fagote e piano.

From My Window nº 3 (2012) – Terceira obra da série From My Window que traduz musical e poeticamente a natureza pujante do Rio de Janeiro. Assim como na primeira obra da série, os movimentos possuem títulos descritivos: Carnival Vertigo, Antique e Drums. Foi escrita para quinteto com piano e é resultado de encomenda do Artist Program da Kean State University (NJ), onde atuei como compositor residente em 2011.

Kinderszenen (2001) – Kinderszenen foi inspirada na obra homônima de Schumann (Cenas infantis) e foi escrita para oboé ou clarinete, cello e piano. A obra é dedicada a Beatriz e João Paulo, meus filhos.

Concerto a Cinco (2012) – Obra para quinteto de sopros e cordas encomendada pelo Quinteto Villa-Lobos para seu aniversário de 50 anos. O número cinco está presente desde o nome do quinteto (“Villa” e “Lobos” possuem cinco letras cada) às fórmulas de compasso que o compositor utiliza. O concerto explora os instrumentos solistas individualmente e em conjunto, além do intenso diálogo com as cordas.

Três Salmos (2016) – Obra para coro e piano sobre os textos dos Salmos 23, 34 e 143.

 

João Guilherme Ripper é compositor, regente, gestor na área da cultura e professor da Escola de Música da UFRJ. Obteve seu Doutorado em Composição na The Catholic University of America, em Washington D.C.. Cursou especialização em Regência Orquestral na Argentina e Economia e Financiamento da Cultura na Université Paris-Dauphine, França. Foi Diretor da Escola de Música da UFRJ e da Sala Cecília Meireles, onde empreendeu uma ampla reforma e modernização do espaço. Em 2015, foi nomeado Presidente da Fundação Teatro Municipal do Rio de Janeiro, cargo que ocupou até o início deste ano. Ripper é membro e atual Vice-Presidente da Academia Brasileira de Música. Colabora frequentemente com orquestras brasileiras através de novas criações. Suas obras têm sido apresentadas nas principais salas de concerto no Brasil e exterior, com destaque para as óperas “Onheama”, produzida pelo Teatro São Carlos de Lisboa em 2016, e “Piedade”, que integra a Temporada 2017 do Teatro Colón, em Buenos Aires.