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| Ferreira Gullar, aos 86 anos: o grande poeta popularizou o ‘Trenzinho’ de Villa-Lobos

04/12/2016 - Por Equipe Tutti

Morre no Rio o poeta, ensaísta, artista plástico, crítico, que tornou popularíssimo um tema de Villa-Lobos: "O trenzinho do caipira", escrito sem pretensão de se tornar canção. "Foi um choque mágico", disse Gullar.

 

Nascido em 10 de setembro de 1930, José Ribamar Ferreira, o Ferreira Gullar (Goulart era o sobrenome da mãe, adaptado para seu pseudônimo literário), ganhou os maiores prêmios da Língua Portuguesa – duas vezes o Jabuti, o Camões; era membro da Academia Brasileira de Letras desde 2014; era artista plástico, crítico, ensaísta, fundador do neoconcretismo; esteve exilado entre 1971 e 1977, época em que escreveu o monumental Poema Sujo, com mais de 60 páginas.

Nele havia uma letra de música – uma sugestão da mulher, Thereza Aragão, para o trecho da Bachiana n.2 de Villa-Lobos. O próprio Gullar escreveu sobre o assunto numa crônica na Folha de São Paulo. Reproduzimos abaixo. O vídeo, a seguir, é o clip para o programa Fantástico de um arranjo vocal do Trenzinho, assinado por Oscar Castro Neves para o sexteto Viva Voz, que registrou em disco. A gravação é de 1979.

 

Trenzinho do caipira
Eu ficava deslumbrado. Deslumbramento esse que voltou quando ouvi a “Bachiana nº 2”

DURANTE OS anos que vivi em São Luís, não me lembro de ter ouvido alguma música de Villa-Lobos. Dos 18 aos 20 anos, fui locutor da Rádio Timbira que, senão me equivoco, raramente transmitia programas de música erudita. Lembro-me de programas de música popular brasileira, de música latino-americana (especialmente boleros) e de música norte-americana, que nos chegava sobretudo através dos musicais da Broadway.

Foi Thereza, minha falecida companheira, quem me revelou a música de Villa-Lobos, depois que nos casamos e passei a ouvir os discos que vieram com ela para nossa casa. Ela era apaixonada pela música dele, que cantava no coro da escola pública onde estudara. Carioca da Tijuca, pertenceu à geração que aprendera a cantar “O Canto do Pagé”, em grandes comemorações oficiais no Campo do Vasco da Gama.
“Ó manhã de sol, Anhangá fugiu.”

Sei é que, certa tarde, sozinho no apartamento (na antiga rua Montenegro, hoje Vinícius de Moraes, em Ipanema), pus na vitrola um disco com as “Bachianas” e ouvi, pela primeira vez, a do trenzinho do caipira.

Entrei em transe. É que, quando menino, meu pai, que fazia comércio ambulante, me levava nas viagens de trem entre São Luís e Teresina. O trem saía de madrugada e, ao amanhecer, cortava o Campo dos Perizes, um vasto pantanal, povoado de garças, marrecos, nhambus, pássaros de todo tamanho e cor. Eu ficava deslumbrado, a cada viagem. Deslumbramento esse que voltou quando ouvi a “Tocata” da “Bachiana nº 2”. Tive o ímpeto, naquele instante, de pôr letra na música, mas não consegui. E não tentei uma vez só, não, mas várias, ao longo dos anos, sem resultado.

Pois bem, em 1975, ao escrever o “Poema Sujo”, em Buenos Aires, evoco aquelas viagens que fazia com meu pai e, então, enquanto, antes, era a música de Villa-Lobos que me fazia lembrar das viagens, agora elas é que me fizeram lembrar da “Bachiana nº 2” e, assim, a letra que não conseguira escrever em 20 anos, escrevi em 20 minutos:

“Lá vai o trem com o menino
lá vai a vida a rodar
lá vai ciranda e destino
cidade e noite a girar…”

Não escrevi essa letra pensando que ela um dia seria gravada; escrevia-a porque aquela reversão da lembrança foi um fator a mais de emoção, um choque mágico, que se incorporava ao poema. Por isso, pus ali uma indicação meio irônica: “Para ser cantada com a “Bachiana nº 2”, “Tocata'”. Mas surgiu alguém que levou a sério a indicação.

O poema foi publicado em 1976, pela editora Civilização Brasileira, de Ênio Silveira, e lançado numa noite de autógrafo sem o autor. Um ano depois, volto para o Brasil e sou procurado por Edu Lobo, que queria gravar o “Trenzinho do Caipira”, com minha letra. Encontramo-nos na Leiteria Mineira, que era ali na rua São José, no centro do Rio, perto da sucursal do “Estadão”, onde eu trabalhava. Ele fez o arranjo e gravou o “Trenzinho”, que passou a tocar muito no rádio e, verdade seja dita, contribuiu para popularizar a “Bachiana nº 2”, talvez a que mais se ouve atualmente. É que a letra facilita a comunicação com as pessoas pouco habituadas a ouvir música instrumental. O mérito não é meu, claro, mas dessa obra-prima que ele compôs, acrescida, então, da interpretação de Edu.

Mas, na hora de obter a autorização para gravar a música com minha letra, Edu se deparou com um problema: a viúva do maestro alegou que adotara como norma não dividir o direito autoral com quem pusesse letra em música de Villa-Lobos. O que me pareceu razoável, já que muita gente poderia valer-se da fama do compositor para pôr qualquer letra em suas músicas e ganhar dinheiro com isso. Não foi o meu caso, como narrei aqui. De qualquer modo, isso não impediu que Edu gravasse a música. Aliás, para que eu não ficasse sem nada ganhar, ele generosamente me fez parceiro de uma das músicas, que era de sua exclusiva autoria. Aquela restrição valeu para o disco apenas, porque toda vez que o “Trenzinho” toca no rádio ou é cantado num show, recebo direito autoral. E, por ironia do destino, já aconteceu me pagarem quando tocaram a “Bachiana”, sem a letra. Como se vê, a confusão é geral.

Por falar em confusão, aproveito a oportunidade para desfazer um equívoco, que se tornou frequente, com respeito a essa letra. Em vez de “correndo pelas serras do luar”, como escrevi, põem “correndo pelas serras ao luar”. É o lugar-comum desbancando a poesia. Num site do Villa-Lobos, insistem no erro. Isso lembra um poema meu em que escrevi: “cantando, o galo é sem morte”. Um tradutor pôs: “cantando el gallo és imortal”. Pensei: é que deve ter entrado para a Academia.

Sexteto Viva Voz canta o Trenzinho do Caipira em arranjo de Oscar Castro Neves, em clip para o Fantástico.