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ATraviata, I Pagliacci (com Jonas Kauffmann) e Gianni Schicchi (com Plácido Domingo)

| Estrelas no Parque Lage: balanço do Ópera na Tela

31/10/2016 - Por Barbosa Chaves

De 22 a 30 de outubro, o público do Rio pôde ver grandes produções de ópera das últimas temporadas na Europa numa maratona de projeções. Destaque para as atuações do tenor Jonas Kauffmann em duas das montagens.

 

Todo festival que se preze tem uma estrela. Os bons festivais têm várias. É o caso do Ópera na Tela, festival de filmes de ópera que ocupou o cenográfico Parque Lage, no Rio de Janeiro, durante os últimos dez dias de outubro, capitaneado por Christian e Emannuelle Boudier.

Apesar do cenário tropical e do sotaque francês de alguns patrocinadores do evento, além de três óperas francesas, a estrela maior do festival foi o formidável tenor alemão, Jonas Kauffmann, que aos 47 anos, no auge da carreira, protagonizou duas das dez  produções escolhidas entre as melhores do mundo nas últimas temporadas.

Kauffmann foi Turiddu, em Cavalleria Rusticana, e Nedda, em Pagliacci, uma interpretação que, certamente, será referência para tenores que, daqui pra frente, se aventurarem no papel do palhaço que encena sua própria tragédia. Apresentadas , como de costume, em programa duplo, as óperas dos veristas Pietro Mascagni e Ruggero Leoncallo, gravadas no Festival de Páscoa de Salzburg, também foram destaque da segunda edição do Ópera na Tela. E não só pela presença espetacular de Kauffmann.

A direção do alemão Phillipp Stölzl mistura elementos de cinema e teatro com referências a autores noir de HQ em um cenário (ou tela?) serigráfico, dividido em seis caixas, nas quais a trama ora se desenrola, ora é reforçada pela imagem da própria cena reproduzida em outra caixa. Vai ser difícil ver ‘CavPag’ de novo sem se lembrar de Stölzl.

Projeção de Gianni Schicchi, dirigida por Woody Allen

Projeção de Gianni Schicchi, dirigida por Woody Allen

Woody Allen e Vito Priante

Outras estrelas brilharam no céu do Parque Lage neste início de primavera, indiferentes ao ciclotímico coaxar dos sapos e aos vagalumes que, volta e meia, invadiam a área coberta – mas sem paredes – onde aconteceram as projeções. Não por acaso, o auditório a “céu aberto” foi montado nos fundos do palacete erguido nos anos 20 para Gabiella Besanzoni, cantora italiana que dominou a cena lírica no Rio de Janeiro até a década de 40.

Woody Allen deu as caras na direção de Gianni Schicchi, de Puccini, com Plácido Domingo como barítono no papel principal da montagem que, de forma um tanto caricata, mescla elementos cênicos da Florença do século XIII com a atmosfera da Nova York dos anos de 1940 (veja aqui a crítica de Clóvis Marques à produção da Ópera de Los Angeles).

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       Vito Priante em recital na abertura do Festival

O barítono italiano Vito Priante também marcou presença tanto na tela, como cantando ao vivo na abertura do festival e participando de uma mesa redonda sobre as tendências das produções europeias de ópera. Estrela ascendente do canto lírico, Priante faz parte da seleta lista de cantores disputados pelas grandes casas de ópera.

Perguntado sobre que papel gostaria de cantar, o barítono mencionou o fascinante Iago, em Ottelo, de Verdi. Mas no festival, Priante aparece em Iolanta, de Tchaikovsky, apresentado este ano na Ópera de Paris. Um papel mais modesto se comparado ao do lendário vilão shakespeariano interpretado na montagem do Festival de Salzburg pelo barítono Carlos Alvarez, outra estrela do Ópera na Tela, ao lado do argentino José Cura, um excelente Ottelo. O figurino de Christian Lacroix foi uma atração à parte.

Também de Verdi, o festival mostrou Trovador, em esmerada produção da Ópera de Paris.

Lucia, Fausto e Traviata

Outro jovem cantor que se consagrou em um papel difícil, cantado por alguns dos maiores tenores da história da ópera, é o peruano Juan Diego Flórez, que viveu Edgardo, em Lucia de Lamermoor, de Donizetti , em montagem do Liceu de Barcelona. A beleza do timbre e seu fraseado perfeito foram os destaques da produção, que, de resto, não chegou a entusiasmar.

Completando a constelação do Ópera na Tela, a elegante montagem do Teatro Regio di Torino para Fausto, de Gounod, e La Traviata, do festival Baden Baden, com elementos circenses e a voz consagrada do jovem tenor brasileiro Atalla Ayan no papel de Alfredo, ao lado da soprano russa Olga Peretyatko.

Pelleas e Melisande, de Debussy, e Sansão e Dalila, de Saint-Saens, foram outras duas óperas francesas apresentadas no festival. Wagner ficou pra próxima, com a promessa da organização do festival de trazer no ano que vem a tetralogia O Anel.

Christian Boudier, a jovem cantora Bruna Gimenez Rafal Sikorski

Christian Boudier, a jovem cantora Bruna Gimenez e Rafael Sikorski

E teve ainda prata da casa, aliás, em estado bruto. A paulista Bruna Gimenez dos Santos, um jovem talento do canto de apenas treze anos, arrebatou a plateia na cerimônia de abertura do festival.

Com desconcertante simplicidade, agradeceu aos organizadores a oportunidade de participar de uma masterclasse a convite do festival, lembrando os incontáveis talentos que nunca chegariam lá. “Estou aqui pra representar todos eles”, resumiu ela em meio a aplausos calorosos.

O Festival prossegue em cinemas de outras cidades brasileiras, como Aracaju, São Paulo e Palmas. A programação, que já começa em novembro, pode ser consultada aqui.