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Eliane Coelho e Eric Herrero / Fotos: Julia Rónai

| Eliane Coelho volta ao Municipal em montagem inédita de Tosca

18/09/2017 - Por Barbosa Chaves

A montagem, com direção de André Heller-Lopes, integra a temporada lírica 2017, prejudicada pela crise financeira do Rio

 

O Theatro Municipal do Rio de Janeiro segue com sua temporada lírica deste ano com uma das óperas mais populares de todos os tempos – Tosca, de Giacomo Puccini, sucesso absoluto desde a estreia em Roma, em 1900. A montagem inédita traz de volta ao palco carioca a soprano Eliane Coelho no papel título. Radicada há décadas na Europa, onde construiu sólida carreira internacional, a soprano arrebatou a plateia do Municipal em abril deste ano no papel de Kostelnicka, em Jenufa. Desta vez, Eliane será Floria Tosca, cantora lírica e protagonista de uma trágica história de amor e vingança que termina com a morte de todos os personagens principais.

Tosca faz parte do versátil repertório de Eliane Coelho, que inclui ainda Mozart, Wagner, Strauss, além de obras do bel canto e do verismo. Uma das mais bem sucedidas cantoras líricas brasileiras, foi contratada pela Ópera Estatal de Viena na década de 1990 e aclamada em Salomé, de Strauss, papel que cantou em mais de 140 récitas. Nos últimos anos, com a voz mais encorpada, vem se dedicando ao repertório de soprano lírico e spinto.

– Minha voz tem mudado desde que comecei a cantar, um desenvolvimento lento, natural e nada raro – explicou Eliane Coelho em entrevista ao Tutti Clássicos a poucos dias da estreia de Tosca.

A soprano contou que, para compor a personagem da diva pucciniana, recorreu à peça de teatro de Sardou em que o libreto  foi inspirado. Lá encontrou menos da diva Tosca e mais da mulher apaixonada e religiosa que não percebe o perigo que ronda seu amado Mario por conta de seus ideais políticos e filosóficos.

Tosca é só amor e arte, uma mulher sincera e autêntica em tudo o que faz, que não conhece segundas intenções e nem entende o desenrolar da situação política a sua volta – descreve.

Apaixonada por teatro desde muito jovem, Eliane considera que o trabalho de atriz é fundamental em Tosca.

– Eu me preocupo em tentar mostrar a trajetória da personagem, que vai da mulher feliz apaixonada até a heroína trágica – explica.

E acrescenta que, como em todos os grandes papeis, também em Tosca é sempre possível descobrir novas nuances.

Cavaradossi

O tenor Eric Herrero também está de volta ao Municipal depois de duas atuações marcantes este ano – Lako, em Jenufa, e Don José, em La tragedie de Carmen. Mais maduro, Herrero vem se destacando no repertório lírico-spinto. Em um bom momento da carreira, não esconde o entusiasmo pelo papel do pintor Mario Cavaradossi na ópera de Puccini.

– Minha voz vem escurecendo, ganhando volume e peso. Eu me sinto bem nesse repertório e, além disso, Cavaradossi é um papel dos sonhos para qualquer cantor da minha corda – reconhece o tenor.

Herrero lembra que cabem a Cavaradossi duas árias que quase todo mundo conhece, E lucevan le stelle e Recondita armonia , ambas imortalizadas pelas maiores vozes masculinas do canto lírico.

– Vou me entregar de corpo e alma ao papel para dar o melhor ao público – promete.

Sobre o pintor idealista que vai encarnar em Tosca, Herrero observa que Cavaradossi tem um coração nobre e coloca sua própria vida em jogo para defender seus ideais.

– É um artista apaixonado pelas belezas da vida e esse tipo de personagem, com conteúdo e profundidade, sempre desperta minha atenção.

Montagem clássica

Tosca terá direção de André Heller-Lopes, que em março assumiu a direção artística do Theatro Municipal em meio à crise que provocou corte de verbas e atrasos de salários na centenária instituição carioca. Inquieto, o jovem diretor carioca diz que não se encaixa no papel de burocrata e prefere participar diretamente das produções.

– É exaustivo mas estou acostumado a essa dupla função, pois sempre dirigi e produzi. E pode ser também muito recompensador: volto a ter contato ainda mais direto com a parte artística, olho no olho com meus colegas músicos. Ficar encastelado no quarto andar do Theatro não é meu estilo. Produzir arte, vocação primeira do Municipal, é – frisa ele.

E adianta que Tosca terá uma montagem clássica, com figurinos de época (assinados por Marcelo Marques) e uma cenografia que busca recriar a atmosfera do período turbulento das guerras napoleônicas e a relação entre poder e religião. Uma gigantesca imagem do Cristo crucificado domina o cenário do primeiro ato, que se passa na igreja de Santa Andrea della Vale, na Roma do início do século XIX.

– Tudo em Tosca ajuda o diretor, basta saber ler a partitura, entender o libreto e perceber como Puccini e seus libretistas conceberam os personagens – observa Heller-Lopes. – Em Tosca, a junção de música e drama é irretocável – acrescenta.

Em duas récitas (23 e 29 de setembro), a soprano chilena Macarena Valenzuela e o tenor gaúcho Juremir Vieira assumem os papéis principais. Valenzuela vem colecionando elogios por suas apresentações em Buenos Aires e Vieira foi um dos destaques da montagem de Tannhäuser no Festival Amazonas de Ópera deste ano. O barítono chileno de origem cubana, Homero Perez-Miranda, participa dos dois elencos como barão Scarpia. Seu repertório inclui de Scamillo, em Carmen, a Wotan, em O ouro do Reno. Também participam da montagem Ciro D’Araujo, Murilo Neves, Geilson Santos e Fabrício Claussen. A regência é do mastro Marcelo de Jesus.

Crise no Municipal

Vinculado ao governo do Estado, o Theatro Muncipal foi duramente atingido pela crise econômica do Rio. Sem salários, os servidores  protestaram nas escadarias do teatro em maio deste ano. Foram apenas três óperas completas em 2017 – Jenufa, Norma (em concerto) e, agora, Tosca.

– Fico feliz que estejam acontecendo essas produções, e que, mesmo passando por momentos difíceis, o teatro esteja podendo ser o que ele deve ser: um grande teatro de ópera – observa Eliane Coelho.

Mesmo com os salários atrasados, o corpo artístico ainda levou ao palco a cantata Carmina Burana e a ópera-balé La tragedie de Carmen, um versão condensada de Peter Brook sobre o original de Bizet. Apesar das dificuldades financeiras, a diretoria do Municipal diz que o teatro vai continuar oferecendo ingressos mais baratos.

– Fomos em busca de patrocínios, em especial da Petrobras e Eletrobras (patrocinadores da produção de Tosca), que voltaram a ser parceiros do teatro. Buscamos a autossuficiência para praticar preços mais acessíveis (abaixo de R$ 100) para as óperas e balés – explica Heller-Lopes.

Ainda na programação deste ano, o corpo de baile apresenta os balés O Lago dos Cisnes e O Quebra Nozes.

Serviço:

“Tosca”, de Puccini Ópera em três atos com libreto de Luigi Illicca e Giuseppe Giacosa, baseado na peça de mesmo nome de Victorien Sardou.
Datas: 22,23,27 e 29 de setembro às 20h, e 24 de setembro às 17h.
22/24/27 – Coelho,Herrero e Perez
23/29 – Valenzuela,Vieira, Perez

Duração: 2h30