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Paulo e Ricardo Santoro, ou vice-versa / Foto: Stefano Aguiar

| Duo Santoro lança segundo CD em concertos em maio

16/05/2017 - Por Luciana Medeiros

Os gêmeos Paulo e Ricardo, aos 30 anos de carreira, homenageiam a cidade no disco que reúne obras da MPB e da música clássica para dois violoncelos escritas por compositores que se inspiraram no Rio de Janeiro

 

 Aos 49 anos, os gêmeos Santoro já estão acostumados às brincadeiras sem graça em torno de sua incrível semelhança (“você é você ou é o outro?”). A convivência e a proximidade, no entanto, trouxeram literalmente uma afinação de objetivos e da performance. Em seu segundo CD, Paisagens Cariocas (A Casa Discos), que terá três eventos de lançamento a partir de quinta, 18 (serviço no fim da reportagem), Paulo e Ricardo Santoro apostam na versatilidade no comando de seus instrumentos, passeando sem solavancos do maxixe brejeiro às peças atonais. Com participações especiais de Cristina Braga (harpa), José Staneck (harmônica) e Ana Letícia Barros (pandeiro), o CD traz peças de Tom Jobim, Ernesto Nazareth, Ronaldo Miranda, Ricardo Tacuchian, Dimitri Cervo,  Leandro Braga, Waldir Azevedo, Adriano Giffoni, Oswaldo Carvalho e Sergio Roberto de Oliveira, que também assina a produção do CD.

Filhos de Sandrino Santoro, um dos grandes contrabaixistas brasileiros, os dois meninos ganharam violoncelos para se iniciar num instrumento mais adequado à altura infantil – e nunca mais largaram. Ricardo conta essa e outras histórias na entrevista a Tutti Clássicos.

 

Tutti Clássicos – A ausência de fronteiras entre o clássico, o clássico contemporâneo e o popular é um ponto chave no disco. Como foi pensado o repertório? Com isso em mente?

Ricardo Santoro – No nosso primeiro CD, Bem Brasileiro, gravamos apenas clássicos brasileiros. Neste segundo CD, a ideia principal foi aliar a música clássica à música popular, exatamente como fazemos nos nossos concertos. Quisemos dar ao público a possibilidade de levar para casa a reprodução de um concerto ao vivo do Duo Santoro. Essa ausência de fronteiras a que você se refere está mais do que provada pelas diversas orquestras mundo afora. O objetivo do músico deveria ser sempre o de levar música boa para o público, seja ela clássica ou popular. Com o CD Paisagens Cariocas, damos a nossa contribuição para quebrar essa barreira que ainda existe – bem menos do que antigamente – entre a música clássica e a popular.

 A versatilidade que os cellos mostram em melodia, harmonia e ritmo é outra viagem do CD. Foi proposital essa suingada, esses papeis variados da dupla?

– A versatilidade dos cellos é, realmente, fantástica. Um instrumento que é sinônimo de voz humana é capaz de coisas maravilhosas, principalmente num CD como esse, no qual tivermos a colaboração direta de sete compositores. Das doze músicas do CD, sete foram dedicadas ao Duo Santoro. Os compositores, apostando nas qualidades do Duo Santoro, criaram todo o suíngue e os papéis variados em suas músicas, que são fundamentais para manter o interesse do ouvinte durante as faixas do CD.

O disco abre e fecha com peças em homenagem ao Sandrino. Como foi a criação de vocês, com o pai na Orquestra, o contrabaixo dele em casa e a escolha do violoncelo?

– Abrir e fechar o CD com músicas em homenagem ao nosso pai foi uma belíssima coincidência, pois até o momento de definirmos a ordem das faixas no CD, nunca tínhamos pensado nessa disposição. Quando vimos que a melhor ordem era essa, ficamos extremamente felizes. Para alegria maior, ainda temos uma música [de Dimitri Cervo] em homenagem aos nossos filhos Pedro e Marcela, ou seja, um CD familiar, como preza a boa tradição italiana.

Nosso pai, Sandrino Santoro, italiano da Calábria, veio para o Brasil em 1951, no porão de um navio, numa viagem que levou 21 dias, pois, após a guerra e após o pai dele ter sido prisioneiro na África, não havia trabalho na pequena cidade de Acquappesa. Chegando aqui, com treze anos e sem falar português, teve que começar a trabalhar para poder ajudar no sustento da casa. Apesar de todas as dificuldades, ele se tornou o mais importante e reconhecido contrabaixista e professor de contrabaixo do Brasil, chegando a ter cinco empregos em orquestras e universidades, a fim de alimentar e educar três filhos. Temos um irmão sete anos mais novo, Savio Santoro, que é violista e professor de viola da Universidade Federal de Pernambuco.

– A escolha da música e do violoncelo veio muito naturalmente. Toda criança tem o pai como ídolo e assim aconteceu conosco. Sonhávamos em ser músicos de sucesso tal qual o pai. Víamos o pai estudando horas a fio o contrabaixo e isso nos animava muito. Daí, como não tínhamos tamanho para o contrabaixo, ele comprou um violoncelo para ser um instrumento provisório até atingirmos o tamanho mínimo para tocar contrabaixo. O que era para ser provisório tornou-se definitivo em nossas vidas. Fato muito curioso é que, quando crianças, chorávamos porque o nosso era o único pai entre todos os amigos que trabalhava à noite, aos sábados, domingos e feriados, e hoje, fazemos exatamente a mesma coisa, e já estamos vendo a hora em que os nossos filhos chorarão pela mesma razão.

Mesmo em peças muito dissonantes como as do Sergio Roberto e de Ricardo Tacuchian, a amplitude e a profundidade do som do violoncelo adoçam as asperezas. A estranheza e a doçura andam juntas no violoncelo?

Sim. Como falei antes, o violoncelo é considerado a voz humana dos instrumentos musicais. Ele é capaz de reproduzir agudos extremos e baixos profundos, frases agressivas e doces, estranheza e doçura. Todas essas qualidades estão presentes no nosso CD.

O CD tem três participações especiais – a harpa celestial da Cristina, o pandeiro brejeiro da Ana Leticia e a harmônica sentimental do Staneck. Já tinham tocado com os três? Como e por que fizeram os convites?

– Já tínhamos tocado várias vezes com esses convidados maravilhosos. Somos amigos dos três há muito tempo. E a melhor combinação para um excelente resultado musical, ou mesmo em qualquer área, é trabalhar com profissionais altamente competentes e que, ao mesmo tempo, sejam amigos. A prova disso está no CD, e o ouvinte vai confirmar ou não essa minha afirmação.  Eu tive um conjunto com a Cristina Braga, o Ricardo Medeiros e o Igor Levy, que se chamava Tocata Brasil. Fizemos muitos concertos e gravamos um CD para a Som Livre. José Staneck é um deus na gaita (ou harmônica) e temos um trio com ele que se apresenta sempre com muita curiosidade da parte do público, pois, com certeza, é o único trio do mundo formado por dois violoncelos e gaita. Ana Letícia Barros, professora de percussão da UNIRIO e esposa do Paulo, é a companheira ideal para os concertos em que precisamos de todo o toque brasileiro do pandeiro, do tamborim, do agogô, do triângulo etc. Resumindo: estamos muitíssimo bem acompanhados.

Vocês são cariocas e o CD se chama Paisagens Cariocas. No momento, o nosso Rio está sofrido, e a música de concerto mais sofrida ainda. Quais as perspectivas que vocês veem nesse momento?

– Realmente, o nosso Rio está padecendo em todos os sentidos e, em momentos como o atual, a cultura é a primeira a sofrer. Hoje talvez estejamos no pior momento em muito tempo para diversas orquestras no Brasil inteiro. A música de concerto ainda não acabou porque temos bravos sonhadores que não deixam a peteca cair. São músicos que não desistem nunca. E não desistiremos tão cedo! Nada vencerá a nossa vontade de fazer música no Rio e no Brasil, de uma forma geral. Não foi fácil gravar um CD como o nosso, sem nenhum tipo de patrocínio, mas, se não o fizéssemos, como teríamos essas obras fantásticas registradas para a posteridade?

Vocês tocam agora dias 18, 19 e 21, n UFF, na Sala Cecília Meireles e na Cidade das Artes.

– Temos três concertos de lançamento do CD. O primeiro chamamos de pré-lançamento. Será no Teatro da UFF, em Niterói, na quinta-feira, 18 de maio, às 19:30h. O segundo concerto, o oficial de lançamento do CD, será na Sala Cecília Meireles, na sexta-feira, 19 de maio, às 20h. E, finalizando essa turnê de lançamento, faremos o terceiro concerto na Cidade das Artes, no domingo, 21 de maio, às 17h. E, para 2020, aguardem o nosso terceiro CD, Bem Italiano!

 

SERVIÇO:

 

DUO SANTORO faz concertos de LANÇAMENTO DO CD “PAISAGENS CARIOCAS”
(Paulo e Ricardo Santoro, violoncelos)
18/05, quinta-feira,  19h30 – Teatro da UFF – Rua Miguel de Frias, 9, Icaraí – Niterói/RJ – (21) 3674-7512 
Ingressos: R$ 14 | R$ 7 (meia)
Classificação etária: Livre

19/05, sexta-feira,  20h – Sala Cecília Meireles – Rua da Lapa, 47 – Lapa, Rio de Janeiro – RJ  – (21)  2332-9223
Ingressos: R$40 e R$20 (estudantes e idosos)
Capacidade: 835 pessoas

21/05, domingo, 17h- Cidade das Artes – Teatro de Câmara – Av. das Américas, 5300 – Barra da Tijuca, Rio de Janeiro – RJ (21) 3325-0102
Ingressos: R$20 (inteira) e R$10 (estudantes e idosos)
Capacidade: 450 pessoas

Programa:

Sergio Roberto de Oliveira – AOS SANTOS ORO*
Ronaldo Miranda – DIÁLOGOS*
Ricardo Tacuchian – MOSAICOS II*
Heitor Villa-Lobos – O TRENZINHO DO CAIPIRA (participação especial: José Staneck, harmônica)
Leandro Braga – A BÊNÇÃO, SANDRINO*
Adriano Giffoni – SANDRINO NO CHORO
Oswaldo Carvalho – PAISAGENS CARIOCAS*
Waldir Azevedo – BRASILEIRINHO (participação especial: Ana Letícia Barros, pandeiro)
*Música dedicada ao Duo Santoro