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Foto: Rafael Mota / Divulgação

| Dez anos de Filarmônica de Minas: temporada 2018 começa dia 17 de fevereiro

30/01/2018 - Por Luciana Medeiros

Uma das poucas orquestras de primeira linha no Brasil, a OFMG traz concertos que celebram efemérides e planeja intensificar ações formadoras

 

Uma década é tempo muito curto para a música clássica e certamente curtíssimo para a consolidação de uma orquestra de primeira linha. Mas a Filarmônica de Minas Gerais contrariou essa expectativa e hoje, completando dez anos de sua estreia, já se colocou, ao lado da Osesp, como conjunto sinfônico mais importante do Brasil.

Com orçamento de R$ 30 milhões, dos quais R$ 18.300 mil vêm do termo de parceria com o governo de Minas, a orquestra conta com uma entrada de R$ 3 milhões de bilheteria. “O resto vem de patrocínios através da Lei Rouanet, estamos na luta”, conta  o presidente do Instituto Cultural Filarmônica,  Diomar Silveira.

O regente titular e diretor artístico Fábio Mechetti, curador da proposta artística do conjunto, diz em entrevista ao Tutti Clássicos: “O difícil é fazer algo atraente e relevante com recursos bastante limitados”. Mas o esforço de celebração poderá incluir turnês nacional e internacional, se houver “patrocinadores que queiram mostrar no exterior aquilo de bom que  existe no Brasil”. Ele enfatiza ainda: “Tudo isso indica a relevância de se ter uma orquestra que oferece essa capacidade de uma maneira ampla e sem concessões. Não é elitismo e, sim, contribuição essencial à emancipação de nossa sociedade”.

A temporada de celebração da data redonda começa logo depois do Carnaval: dias 17 e 18 de fevereiro, na Sala Minas Gerais, a OFMG toca a grandiosa Nona Sinfonia,de Beethoven. Com a orquestra, regida por Mechetti, estarão Gabriella Pace (soprano), Adriana Clis (contralto), Matheus Pompeu (tenor), Licio Bruno (baixo-barítono) e dois corais: o da Osesp, com regência de Valentina Peleggi, e o Concentus Musicum de Belo Horizonte, com regência de Iara Fricke Ma. Os ingressos para os dias 17 e 18 já estão esgotados.

Acompanhe a conversa de Fábio Mechetti com Tutti.

Tutti Clássicos:  Quais são os principais conceitos que nortearam a criação da Orquestra e como você avalia cada um deles, dez anos depois?

Fábio Mechetti: Não havia sentido na época criar-se mais uma orquestra apenas para que ela existisse. O sentido foi que nela se espelhasse uma filosofia da busca constante da excelência. A Filarmônica buscou sempre a rara oportunidade de começar algo novo com o pé direito. O sucesso indiscutível da orquestra deve-se essencialmente em acreditar nos princípios básicos que a criaram, na persistência em focar em sua missão artística como veículo cultural de verdadeira emancipação da sociedade. Nesses dez anos, isso se consolidou, tanto internamente como no reflexo desse trabalho, ou seja, no aplauso, no carinho e na aceitação incondicional do público mineiro.

Tutti Clássicos:  A temporada de celebração tem muitos grandes nomes. E as efemérides, de Gounod a Bernstein, de Braga a Debussy, possibilitam um painel colorido. Existe uma espinha dorsal nesse conjunto de escolhas para 2018?

Fábio Mechetti: A diversidade é sempre bem-vinda. E isso não é difícil quando trabalhamos num contexto histórico de um repertório de mais de 500 anos. O difícil é fazer algo atraente e relevante com recursos bastante limitados. Assim, temos a oportunidade, a cada ano, de explorar certos compositores que celebram algum aniversário importante, alguns até nem tão conhecidos (como Francisco Braga), e trazer ao público um retrato diferente da obra deles. Assim, por exemplo, faremos em três semanas consecutivas um intenso Festival Bernstein, com nove obras significativas desse grande nome da música do século XX. Alguns dos solistas de renome internacional estarão conosco pela primeira vez, como o duo Michelle e Christina Naughton, os violoncelistas Victor Julien-Laferriére e Pablo Ferrández, além da maior percussionista da atualidade, Evelyn Glennie. Outros que retornam com todo o seu talento como Gabriela Montero, Angela Cheng, Vadim Gluzman, Rachel Barton-Pine e, logicamente, nossos queridos Arnaldo Cohen e Nelson Freire.

Tutti Clássicos:  A atuação didática e formadora cresceu? Os projetos atendem desde as crianças até os espectadores pré-concerto. Você acha que o público tem sede desse conhecimento? 

Fábio Mechetti: Existe uma grande sede e interesse confirmados pelos dados revelados nos últimos anos. O número total de ouvintes da Filarmônica cresce a cada ano. O número de assinantes vem batendo recordes anuais consecutivos, mostrando a fidelidade que a Filarmônica vem conquistando. Nossos Concertos Comentados, que precedem as apresentações dos concertos de série, assim como os  da Juventude, sempre superlotados, e os Concertos Didáticos oferecidos às escolas da rede pública mostram que, apesar do pessimismo quanto ao futuro das orquestras, há espaço, de sobra, para cultura de qualidade. Tudo isso indica a relevância de se ter uma orquestra que oferece essa capacidade de uma maneira ampla e sem concessões. Não é elitismo, e, sim, contribuição essencial à emancipação de nossa sociedade.

Tutti Clássicos:  No campo da formação de regentes e abertura de espaço para compositores, quais são os resultados dos anos de Tinta Fresca e Laboratório de Regência? Quem você vê se projetando?

Fábio Mechetti: Vários dos participantes do Festival Tinta Fresca estão hoje se consolidando aqui e no exterior – caso, por exemplo, dos compositores Rafael Nassif e Sérgio Rodrigo que atuam hoje na Europa.  Dentre os regentes que passaram pelo Laboratório destacaria o Marcelo Lehninger, o Tobias Volkman, o Yuri Azevedo e a Simone Menezes, dentre outros.

Tutti Clássicos:  Além das turnês pelo estado, estão previstas turnês nacionais e internacionais?

Fábio Mechetti: Com a crise econômica que abateu o país, fomos obrigados a concentrar nossas atividades nos últimos anos dentro do estado. Mas pretendemos, em 2018, realizar concertos no Rio de Janeiro e em São Paulo. Estamos também tentando viabilizar financeiramente uma turnê internacional para celebrarmos os 10 anos da Filarmônica. As datas e salas estão reservadas. Precisamos apenas de um ou mais patrocinadores que queiram mostrar no exterior aquilo de bom que  existe no Brasil, associando suas marcas com algo que vem dando tanto orgulho aos mineiros e brasileiros em geral.

Tutti Clássicos:  Como tem sido driblar as questões financeiras da faladíssima crise?  Como a direção artística e a direção executiva se afinam para realizar sem impossibilitar?

Fábio Mechetti: Uma boa orquestra não se caracteriza apenas pela harmonia e profissionalismo de seus músicos, mas também pela eficiência e dedicação daqueles que nos dão apoio. Contamos com excelentes músicos e fantásticos funcionários na rotina desafiadora que é o dia a dia de uma orquestra profissional. A crise é verdadeira e os impactos financeiros, sem dúvida, vêm afetando a habilidade da Filarmônica em realizar todo o seu potencial. Minha relação, como diretor artístico da Filarmônica, é das mais frutíferas com nosso diretor executivo, Diomar Silveira. Essa “parceria” acredita na importância nevrálgica desse projeto, de seu sucesso, de sua relevância, e da sua necessidade de existir, a despeito das adversidades. Vestimos a camisa da Filarmônica com muita dedicação, empenho, seriedade, integridade e extrema paciência.

Temos também um Conselho concentrado em conseguir preservar todas essas conquistas. E não poderíamos deixar de reconhecer, ao mesmo tempo, que, apesar da enorme crise que aí está, o Governo de Minas vem mantendo sua parte nessa equação de sucesso, e, sinceramente, agradecemos. Hoje, a Filarmônica é um patrimônio cultural mineiro, reconhecido por todos, independentemente de posições políticas. E é assim que deve ser: a cultura tem exatamente esse papel.

Tutti Clássicos:  O que falta fazer? Que projetos são suas metas nos próximos anos?

Fábio Mechetti: Temos três projetos que há muito tempo gostaríamos de implementar, na formação de público e de futuros músicos de qualidade que possam futuramente ingressar na Filarmônica. Queremos, assim que houver real condição financeira, criar a Filarmônica Jovem, assim como uma Academia que venha a possibilitar jovens talentosos a aprimorarem suas experiências visando uma carreira musical dentro de uma orquestra.

Do ponto de vista artístico, estamos muito entusiasmados com a gravação do ciclo das sinfonias de Mahler (já com a Quinta e a Sexta registradas, e a Terceira e Quarta programadas para este ano), e também com o início de uma parceria com o Itamaraty para a gravação de vários compositores brasileiros com o intuito de divulgá-los no exterior. Este ano será a vez do Alberto Nepomuceno, de quem gravaremos sua Sinfonia em sol menor, a Série brasileira e o Prelúdio de O Garatuja.

Do ponto de vista físico, embora contentes e realizados com a abertura da Sala Minas Gerais, que vem se revelando como uma das melhores salas de concertos da América Latina, não desistimos de maneira alguma de completá-la com o órgão sinfônico planejado para estar lá, mas, por razões óbvias, ainda não foi possível concretizar esse passo adicional.

 

PROGRAMA
Orquestra Filarmônica de Minas Gerais
Concertos de aniversário – 10 anos
 
Dia 17 de fevereiro
Sala Minas Gerais
Horário: 20h30
 
Dia 18 de fevereiro
Sala Minas Gerais
Horário: 19h

Fabio Mechetti, regente
Gabriella Pace, soprano
Adriana Clis, contralto
Matheus Pompeu, tenor
Licio Bruno, baixo-barítono
Concentus Musicum de Belo Horizonte
Iara Fricke Matte, regente
Coro da Osesp
Valentina Peleggi, regente

 
SILVA              Hino Nacional Brasileiro
GUARNIERI    Suíte Vila Rica
BEETHOVEN   Sinfonia nº 9 em ré menor, op. 125, “Coral”
 
Venda de ingressos a partir de 16 de janeiro de 2018, na bilheteria e pelo site.
Ingressos: R$ 50 (Balcão Palco), R$ 50 (Mezanino), R$ 90 (Balcão Lateral), R$ 120 (Plateia Central) e R$ 150 (Balcão Principal).
Meia-entrada para estudantes, maiores de 60 anos, jovens de baixa renda e pessoas com deficiência, de acordo com a legislação.
Informações: (31) 3219-9000 ou www.filarmonica.art.br

Funcionamento da bilheteria:
Sala Minas Gerais – Rua Tenente Brito Melo, 1090 – Bairro Barro Preto
De terça-feira a sexta-feira, das 12h às 21h.
Aos sábados, das 12h às 18h.
Em sábados de concerto, das 12h às 21h.
Em domingos de concerto, das 9h às 13h.

São aceitos cartões com as bandeiras Amex, Aura, Redecard, Diners, Elo, Hipercard, Mastercard, Redeshop, Visa e Visa Electron.