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André Tandeta, Nikolay Sapoundjiev, Lipe Portinho, Emília Valova e Ana Azevedo / Foto: divulgação

| Corda toca Piazzolla na Sala Cecilia Meireles na sexta (3)

01/02/2017 - Por Luciana Medeiros

O grupo, que lançou seu CD interpretando obras do compositor argentino em 2012, mostra seus arranjos para a formação com violino, cello, contrabaixo, piano e bateria. Não faltam clássicos e obras pouco conhecidas

 

Conta-se que o compositor Astor Piazzolla estava em Paris, em 1954, tendo aulas com a mítica professora Nadia Boulanger, depois de anos de estudo com outro mito, o compositor Alberto Ginastera, e Bela Wilda, pupilo de Rachmaninoff. A ideia era aperfeiçoar as habilidades de concertista clássico. Um dia, a professora deixou a sala por momentos e Piazzolla passou a tocar suas composições com a alma do tango. Foi o suficiente para que ela voltasse e afirmasse: “esse é seu caminho”.

O contrabaixista Lipe Portinho, à frente do grupo Corda, confirma a lenda – ou, ao menos, o espírito da coisa. O grupo, que ocupa a Sala Cecília Meireles na sexta (3), mostra o repertório portenho do disco gravado em 2012.

– Quando empurrou o Piazzolla para sua própria obra, Nadia fez um grande bem a ele e a todos nós. Foi como Ary Barroso, ao receber Luiz Gonzaga para tocar samba-canção na Rádio Nacional. Ao ouvir os baiões do pernambucano, aconselhou que ele seguisse aquela rota, muito mais verdadeira.

As origens do grupo que combina formação clássica e performance jazzística têm uma salada geográfica: são dois cariocas e dois búlgaros. Lipe conheceu os estrangeiros em Manaus.

– Toquei na Amazonas Filarmônica em 1999, com o violinista Nikolay Sapoundjiev e a violoncelista Emília Valova – conta Lipe Portinho. – Eu fiquei maravilhado com a excelência dos doise fizemos logo um grupo de câmara, já tocando Piazzolla. Quando eles finalmente vieram para o Rio de Janeiro, em 2009, nasceu o Corda.

A pianista Ana Azevedo se juntou ao grupo, assinando arranjos junto com Lipe – que já havia mergulhado na obra do argentino quando tocou com o grupo do clarinetista Paulo Sérgio Santos, o Piazzollando, vinte anos atrás.

– Ali já estava escrevendo os arranjos. Quando Nikolay e Emilia vieram para o Rio, Ana e eu dirigíamos a Sala Baden Powell. Nunca mais paramos o trabalho e gravamos nosso primeiro disco em 2012.

Pode-se estranhar a ausência do bandoneon na formação do grupo – que tem participação do baterista André Tandeta. Lipe explica que o instrumento, tão associado ao tango, não estava nas origens do gênero.

– O tango era tocado nas docas de La Boca com violão e violino. Na virada do século XIX para o XX, apareceu por lá um alemão que inventara um “órgão portátil”, o bandoneon, que caiu no gosto dos músicos. Piazzolla usou, e transcrevemos as frases do instrumento para o violoncelo e às vezes para o violino.

O tango, aliás, nasce no Brasil na Argentina, ressalta Lipe. Ernesto Nazareth, no Brasil, batiza muitas de suas composições como tango.

O programa da noite tem algumas das peças de resistência de Piazzolla e outras obras menos conhecidas.

– As Quatro Estações abrem a noite, porque considero uma das suas criações mais importantes, especialmente para violino, com as cadências que ele usava ao vivo – conta Lipe. – E tocamos na ordem que começa não com a Primavera, como as do Vivaldi, mas com o Verão. E acaba na Primavera, porque ele não acreditava que a velhice seria o triste inverno.  Faz sentido ao pensarmos na homenagem ao pai dele que é Adiós, Noniño. A peça, ao contrário do que se pensa, não é uma homenagem ao avô, mas ao pai dele, que morreu relativamente jovem.

Do programa, Lipe destaca ainda Kicho – apelido do contrabaixista e grande amigo de Piazzolla, o único músico que nunca saiu dos grupos do compositor. Tem, conta Lipe, grandes desafios ao instrumento, que ganhou arranjo para o Corda. E, dentre as canções menos conhecidas, “do lado B”, como diz Lipe, está Scualo, uma referência ao hobby do compositor. Scualo quer dizer “tubarão” em castelhano, que Piazzolla gostava de caçar.

– Quando Pipi Piazzolla, neto do compositor, gravou sua homenagem, incluiu logo essa peça. É um tour de force para o violoncelo, na nossa versão. E tocamos no tempo certo, muito rápida. Aqui, em geral, se toca na metade do tempo. Aliás, a grande maioria dos que tocam Piazzolla no Brasil não o conhece bem, nunca foi a Buenos Aires ou só viu tango para turista – apimenta o músico. – A dramaticidade de Piazzolla também se fundamenta na troca brusca de andamentos, uma herança do Romantismo da música clássica, aplicada com maestria incrível. E é preciso estar no tempo certo para que essas variações sejam possíveis.

Pipi Piazzolla e seu sexteto Escalandrum está na lista dos argentinos contemporâneos que chamam a atenção de Portinho – “e também os compositores Hernán Merlo, contrabaixista, Ignacio Cacace, guitarrista, Marco Sanguinetti, pianista”. A música argentina, aliás, nunca caiu de nível, afirma.

– As casas de jazz nunca deixaram de funcionar, nem com as crises. Jazz, aliás, significa música livre, é o que Piazzolla era, com seu trânsito entre o clássico e o popular, sua inventividade e ousadia.

O Corda se dedica agora à gravação do próximo CD, que se debruça sobre os choros. E de passagem, na despedida da entrevista, Lipe Portinho menciona um aval que o Corda recebeu. De ninguém menos que Amelita Baltar, cantora, bailarina e penúltima mulher de Piazzolla.

– Uma amiga levou o disco do Corda para Amelita, que fez questão de ouvir em silêncio todas as faixas. No final, aos prantos, disse: ‘foi a melhor interpretação que ouvi em mais de dez anos’.

 

ROTEIRO:  Verano Porteño / Otono Porteño / Invierno Porteño / Primavera Porteña / Kicho / Oblivion / Scualo / Romance Del Diablo / Muerte Del Angel / Adiós Noniño

3 Fevereiro – sexta-feira, 20h

Ingressos: R$ 40, disponíveis na bilheteria da Sala Cecília Meireles ou através do site www.ingressorapido.com.br

Sala Cecília Meireles –  Largo da Lapa, 47 Centro  21 2332-9223/2332-9224

Veja abaixo Veraño Portenho com o Corda.