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Cena de 'Lo Schiavo' / Foto: Julia Ronai

| Convicção, exuberância, arrebatamento no ‘Schiavo’

23/10/2016 - Por Irineu Franco Perpétuo

O crítico avaliou a montagem da ópera que celebra as efemérides de nascimento e morte de Carlos Gomes. "'Lo Schiavo' coloca em cena algumas das melhores vozes brasileiras numa montagem privilegiada".

 

irineu2Em um ano dominado por crises, cortes orçamentários e cancelamentos em todo o Brasil, talvez não seja exagero considerar a produção de Lo Schiavo, de Carlos Gomes, do Teatro Municipal do Rio de Janeiro o evento mais importante da ópera em nosso país em 2016. Todas as turbulências que abalam o cenário cultural brasileiro ficaram do lado de fora da Praça Floriano, e a casa celebrou com exuberância as efemérides de 180 anos de nascimento e 120 anos de morte do maior compositor brasileiro de ópera de todos os tempos.

Mérito, obviamente, de todos os envolvidos, mas sobretudo do compositor João Guilherme Ripper (cujo trisavô, curiosamente, era amigo e correspondente de Carlos Gomes), um especialista em extrair torrentes de leite dos mais áridos pedregulhos que, desde que assumiu a presidência da Fundação Teatro Municipal, rapidamente arrancou a casa carioca da mórbida sonolência em que se encontrava e lhe devolveu o justo papel de protagonista e galvanizador da cena musical nacional. Seu coprotagonista nisso é o maestro André Cardoso, diretor artístico da casa.

Para entender Lo Schiavo, há que se ter em mente que o abolicionismo “ma non troppo” das elites brasileiras do final do Segundo Império não digeria bem a representação heroica de escravos negros: assim, se a Escrava Isaura, de Bernardo de Guimarães, era branca, o Iberê, de Carlos Gomes, é indígena.

O que confere não apenas verossimilhança, como sabor e força, a uma trama incongruente, que flerta com o absurdo, é o vigor da música de um Carlos Gomes em plena maturidade criativa, e amplo domínio de seus poderes composicionais. Na ópera, a voz do narrador é representada como compositor, e Gomes, no Schiavo (como Verdi em criações de trama igualmente difícil de aceitar para o gosto de hoje, como Il Trovatore e La Forza del Destino), emprega a música para revestir de veracidade e humanidade seus personagens e suas motivações.

Essas motivações parecem ter sido plenamente entendidas pelo elenco e transmitidas à plateia com convicção e arrebatamento. Lo Schiavo colocou em cena algumas das melhores vozes brasileiras – modelo que parece especialmente relevante em momento de estreiteza orçamentária generalizada e que bem mereceria ser adotado como paradigma em todo o Brasil.

A soprano Adriane Queiroz, que há alguns anos era uma Ceci de referência, tornou sua vocalidade ainda mais robusta, convertendo-se em uma Ilara não menos que ideal. O tenor Fernando Portari também vem cantando papéis de mais peso; a ideia de encenar o primeiro e o segundo ato sem intervalos fez com que ele atuasse em metade da ópera quase sem sair do palco, porém sua experiência e sabedoria fizeram com que não houvesse queda de qualidade e intensidade em uma caracterização segura e convincente de Américo. Rodolfo Giuliani possuiu um timbre cheio e glorioso que é um deleite de ouvir nos papéis verdianos de barítono, e que aqui parecia idealmente talhado para Iberê. Saulo Javan e Leonardo Páscoa mantiveram o nível dos protagonistas nas partes, respectivamente, de Rodrigo e Gianfera, enquanto Cláudia Azevedo soube manobrar com extrema precisão as coloraturas e agudos da Condessa de Boissy, sem deixar de projetar sua voz de soprano ligeiro por todos os recantos e vastidões do Municipal.

Quem viu a encenação de Jupyra, de Francisco Braga, no Teatro Municipal de São Paulo, em 2013, com direção cênica de Pier Francesco Maestrini e cenografia de Juan Guillermo Nova, há de notar semelhanças entre aquela produção e o Schiavo que a dupla levou ao Rio de Janeiro. Em ambos os casos, tratam-se de leituras relativamente “tradicionais” dos respectivos libretos, com cenários que buscam resgatar a exuberância da natureza, porém com cuidados de estilização que evitam o ridículo em que tantas vezes incorre a caracterização de índios em palco de ópera – basta se lembrar da malfadada produção de Lo Schiavo que assolou alguns teatros brasileiros em 1999.

A direção musical ficou a cargo de Roberto Duarte, gomesiano devotado, que estreou sua revisão da partitura original, na íntegra, dando-nos a oportunidade de apreciar a criação de Gomes em toda sua plenitude. Duarte acompanhou os cantores com carinho, valorizou coros e concertatos e soube conduzir a longa (contado o intervalo, cerca de quatro horas) apresentação sem queda de interesse.

À parte alguns deslizes pontuais, a Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal atuou de forma concentrada e atenta, embora precise evoluir em termos de equilíbrio entre os naipes e caráter da sonoridade. Já o coro demonstrou sempre potência em suas não poucas intervenções.

Feitas as contas, a única pena que fica no coração é essa montagem não estar sendo filmada ou gravada com recursos profissionais. Valeria a pena deixar registrada uma execução tão especial de uma obra capital do repertório brasileiro, e compartilhá-la com quem não teve o privilégio de estar no Teatro Municipal.

*Irineu Franco Perpétuo veio ao Rio a convite de Tutti Clássicos, do Municipal do Rio e da Academia Brasileira de Música. Foto do crítico é de Izilda França

Lo Schiavo tem récitas dias 23, 25, 27 e 29 de outubro no Theatro Municipal do Rio. Serviço no calendário do Tutti.

  • Reportagem do Tutti sobre a ópera aqui.