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Paulo Costa Lima Foto: Divulgação

| Compositores da Bahia: Seis décadas de movimento

21/11/2017 - Por Paulo Costa Lima*

O compositor e acadêmico Paulo Costa Lima discorre sobre a importância da contribuição da Bahia na formação de novos compositores

Ao longo das décadas, desde o Festival da Guanabara em 1969, a Bahia foi conquistando uma dimensão especial no imaginário da música erudita brasileira, como lugar de formação de compositores. A Escola de Música da UFBA, criada na década de 50 por Hans Joachim Koellreutter (a convite do visionário Reitor Edgard Santos) e a partir da valorização da criação como parâmetro pedagógico indispensável, encontra na década seguinte, os anos 60, já sob a liderança do compositor baiano (nascido na suiça) Ernst Widmer, sua vocação de matriz de compositores e professores de composição (para Widmer, educar e compor é a mesma coisa).

Seis décadas depois, encontramos o Movimento de Composição na Bahia em pleno vigor, participando ativamente da XXII Bienal de Música Brasileira Contemporânea, com nove obras que mereceram atenção do público e dos colegas. Três professores – Wellington Gomes, Guilherme Bertissolo e este que escreve, além de seis alunos ou ex-alunos: Alex Pochat (recém-doutor), Vinicius Amaro (doutorando), Danniel Ribeiro (UFBA e Mestre pela McGill), Marcos Feitosa (UFBA e UFRJ), Paulo Santana (graduado na UFBA) e Luã Almeida (aluno da graduação, UFBA).

Nos últimos 10 anos, mais de 30 prêmios foram concedidos a compositores formados na Bahia. Trata-se de um movimento, pois esse foi o espírito plantado lá atrás, uma espécie de ativismo cultural que também se preocupa com a formação de novos valores. Não é apenas o trabalho de indivíduos, mesmo que reunidos em algum grupo. Trata-se, acredito, da experiência brasileira com maior longevidade e continuidade, no campo da Composição. Reconhece-se que o projeto/utopia dos anos 60 continua vivo, apesar de todas as diferenças do presente, e também que sua identidade transcende a dos indivíduos ou grupos que vão se formando em cada etapa. Trabalhamos para que o movimento permaneça nas próximas décadas, (que nos ultrapasse) e inclusive para que cresça.

Portanto, a partir da herança dos fundadores, a partir da energia liberada pelas obras de compositores como Lindembergue Cardoso, Fernando Cerqueira, Rinaldo Rossi (e se quiséssemos faríamos aqui um desvio com TomZé para o campo da música popular), Milton Gomes, Jamary Oliveira, Walter Smetak, Agnaldo Ribeiro, Ilza Nogueira entre vários outros – foi se desenvolvendo uma convivência e um verdadeiro ambiente cultural que tem promovido a formação de novas gerações de criadores, e a multiplicação de feitos nessa área.

Em 2014 a nova geração (surgida com o grupo OCA) emplacou um grande tento, ganhando o Edital Nacional da Petrobrás (financiamento no valor de R$600.000,00), dando origem ao MAB – Música de Agora na Bahia, liderado por Guilherme Bertissolo, Paulo Rios Filho, Alexandre Espinheira e Tulio Augusto, uma série de encontros, festivais, concursos, estreias, debates, gravações, que vem mantendo a Bahia como centro de uma rede de produção contemporânea, trazendo para estreias de compositores baianos grupos como o Mivos Quartet (New York), o internacionalmente prestigiado ICE, além de diversos grupos nacionais.

O movimento de Composição Musical na Bahia se estrutura hoje em diversos níveis na Escola de Música da UFBA, envolvendo desde a formação pré-universitária, curso de graduação, mestrado e doutorado – além da atividade profissional dos docentes de composição. São inúmeras estreias internacionais em países como Estados Unidos, Rússia, Alemanha, Chile, França, Polônia, e diversas obras orquestrais com as principais orquestras brasileiras. Nos últimos 20 anos foram 22 teses de doutoramento defendidas em Composição, e mais de 100 dissertações de mestrado. Isso representa um grande aporte de conhecimento, na interface da produção artística com a pesquisa. Os resultados artísticos surgem da consciência desse amálgama, que sempre também implica um diálogo estreito da teoria da música com a criação. Esse, certamente, um dos traços diferenciais do Movimento, sua formalização como estrutura de produção de conhecimento teórico e artístico.

Permanece assim o Movimento de Composição como referência de projeto de criação no Brasil, já tendo gerado a elaboração de cerca de 2 mil obras nessas seis décadas de existência.

***Compositor, Membro da Academia Brasileira de Música, Professor Titular de Composição Musical da Escola de Música da UFBA,
Pesquisador CNPq.