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"O Sétimo Selo"/ Foto: Athena Azevedo

| Brasileiro João MacDowell monta em Nova York sua ópera ‘O Sétimo Selo’

07/11/2016 - Por Debora Ghivelder

Inspirada no filme icônico de Ingmar Bergman, obra teve o primeiro ato apresentado nesta quinta (10), na Casa da Escandinávia

O medo da morte é o sentimento que move O Sétimo Selo, filme de 1956 de Ingmar Bergman (1918-2007), baseado em peça também de autoria do cineasta. A trama acaba de virar ópera pelas mãos de João MacDowell, compositor brasileiro radicado em Nova York desde 2002. Esta não é a primeira vez que ele se aventura por uma obra do mestre do cinema sueco: MacDowell já tinha conferido estrutura lírica a Gritos e Sussurros (filme de 1972), desenvolvida em 2014 em uma residência na Fundação Bergman, na Suécia. O Sétimo Selo, cujo primeiro ato foi apresentado numa versão em concerto nesta quinta (10) e no sábado (12), na Casa da Escandinávia, em Nova York, também foi composta em uma estadia na mesma fundação.

A montagem é da International Brazilian Opera Company (Iboc), fundada por João em 2014 com o objetivo de investir na colaboração entre artistas brasileiros e estrangeiros para a criação de novos repertórios líricos. E reúne artistas de todos os continentes. À frente no elenco de sete solistas de O Sétimo Selo estão a soprano grega Olga Bakali, no papel da Morte e o tenor angolano Nelson Endo como o cavaleiro Antonius Block. O espetáculo conta ainda com um coro e tem o acompanhamento de um quinteto formado por piano, violino, violoncelo, trompete e percussão.

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João MacDowell em ensaio da ópera/ Foto: divulgação

Cantada em sueco

Para levar ao palco a história do cavaleiro que volta de uma Cruzada para encontrar a Morte na sua terra varrida pela peste e propõe a ela uma extensão de tempo – negociada numa disputa de xadrez -, MacDowell mergulhou em pesquisas ao longo de um ano. Estruturada como o filme, a ópera vai ser apresentada agora em sueco, com legendas em inglês. O segundo ato será concluído no ano que vem.

– Eu revi o filme cena por cena. E uso o texto literal. Mantive a maioria dos personagens, mas alguns foram consolidados. Por exemplo, no filme há três religiosos e, na ópera, fundi esses três em um único papel, porque assim também a participação do cantor ficava mais consistente – explica MacDowell, em entrevista concedida de Nova York.

Para levantar este primeiro ato, MacDowell conta com Clarice Gonzallez (ela antes adotava o sobrenome Prieto), braço da companhia no Rio e que estrelou aqui, no ano passado, a ópera Flores de Plástico, também de autoria do brasileiro. Clarice embarcou em outubro para Nova York com a missão de preparar o coro para esta produção.

– A proposta do João é especial. À frente da companhia, ele vai fazendo as coisas acontecerem, mesmo sem muito dinheiro – diz Clarice.

A companhia, segundo MacDowell, tem na gênese esse espírito brasileiro que ele define como filosofia de escola de samba. Ou seja, juntar gente e simplesmente fazer as coisas. Ao mesmo tempo, ele acredita que sua companhia tem o mérito de promover o que batiza de diplomacia cultural:

-Estamos mostrando, aqui, um Brasil e brasileiros longe do estereótipo. Acho que esse nosso papel é muito honrado – explica o compositor.

Não dá para negar: compositor brasileiro apresentando em Nova York uma ópera baseada em filme-ícone do maior diretor sueco…  é puro samba.