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As imagens de Henrique Alves de Mesquita (esq) e de Ernesto Nazareth com o violonista Nicolas de Souza Barros ao centro

| “Com alegria: chora, violão!”

24/11/2016 - Por Nicolas de Souza Barros

Artigo especialmente escrito por Nicolas de Souza Barros comenta a interpretação das obras de Nazareth e Henrique Alves de Mesquita em seu violão de 8 cordas, que ele leva ao palco nessa sexta, 25, no Teatro Ziembinsky, na Tijuca.

 

“Chora, violão!”, título do programa que apresento no Teatro Ziembinski nessa sexta-feira, 25 de novembro, remete sim à riqueza do choro instrumental, mas também às qualidades expressivas da valsa brasileira. O projeto começou a ser elaborado a partir de um arranjo da linda Valsa de Esquina No. 1 de Francisco Mignone (1897-1986), original para piano. Ao estudar esta reelaboração, que caiu muito bem no violão de oito cordas, pensei se poderia idealizar um programa de obras brasileiras que despertam grande emoção.

Comecei assim uma pesquisa de obras que ficam na fronteira estilística entre o erudito e o popular, como a valsa de Mignone. Era fundamental revisitar as obras pianísticas de Ernesto Nazareth (1863-1934) que eu ainda não havia analisado quando lancei o CD Ernesto Nazareth por Nicolas de Souza Barros: violão de oito cordas (produção independente; 2014). Nesta nova peregrinação, arranjei várias valsas, dois tangos brasileiros (ou choros), uma meditação, dois tangos com caráter mais latino e um tango de salão. Todas lindas.

Depois, investiguei a produção de Henrique Alves de Mesquita (1830-1906), da geração anterior à de Nazareth. Seu estilo composicional, particularmente nas polcas (e polcas-cateretês), mostra claramente uma linhagem estética que seria majestosamente continuada por Nazareth. Finalmente, o tango de salão O despertar da montanha é talvez a obra mais conhecida de Eduardo Souto (1882-1842). Curiosamente, Nazareth dedicou um belo tango de salão – O alvorecer – a Souto.

Existe aí uma questão fundamental que vale a pena destacar, a das nomenclaturas associadas aos choros antigos. Em 1892, Nazareth empregou o termo “tango” pela primeira vez, denominando a obra Rayon d’or de “polca-tango”. Ele viria a compor aproximadamente 90 obras usando esta palavra no subtítulo – algumas delas ainda hoje representam pontos máximos da nossa música popular/erudita.

Aí se delineia o problema: o tango argentino surge no cenário mundial ao final da década de 1910, e Nazareth foi, a partir deste momento, criticado pela sua “apropriação” do termo. Estes críticos preferiam que ele empregasse o termo “maxixe”, nome de uma dança afro-brasileira que surge no Rio de Janeiro ao fim do século XIX. Uma opinião contrária vem de Mario de Andrade, que alertava sobre os andamentos de Nazareth na sua execução dos seus tangos – bem mais lentos do que os dos maxixes da época.

Também originária nas últimas décadas do século XIX, e com as mesmas raízes do maxixe e do tango brasileiro, o choro é uma tradição musical urbana brasileira baseada em instrumentos de cordas tangidas, percussões e instrumentos melódicos como a flauta, a clarineta e o saxofone. Muitos chorões preferem chamar as obras de Nazareth de choro.

Entre estas nomenclaturas – maxixe, tango e choro – uma coisa é certa: a popularidade dos tangos nazarethianos é enorme. Foram, e são, apreciados e tocados em períodos distintos, quando o sentido principal da palavra por ele escolhida para nomeá-las já tinha sido modificado.

Então, com alegria: chora, violão!


Recital “Chora, violão!”. Obras inéditas para violão de Mignone, Nazareth, Henrique Alves de Mesquita e Eduardo Souto com Nicolas de Souza Barros: violão de 8 cordas.

25 de novembro de 2016 (sexta-feira), 19h
Ingressos: R$ 10,00 e R$ 5,00 (meia entrada)

Teatro Municipal Ziembinski. Próximo ao Metrô São Francisco Xavier.
Av. Heitor Beltrão, s/n. Tijuca, Rio de Janeiro – (21) 3234-2003
Série Musicâmera (curadoria de Luis Carlos Barbieri).