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La Prohibición de Amar / Foto de divulgação - Teatro Real de Mdrid

| Teatro Colón encena ópera ‘A Proibição de Amar’, de Wagner, raramente vista

30/04/2017 - Por Barbosa Chaves

Baseada em obra de Shakespeare e composta pelo alemão aos 21 anos , a obra é apresentada no teatro portenho em coprodução com as óperas de Londres e Madri

 

Está em cartaz no Teatro Colón de Buenos Aires a ópera A proibição de amar (Das Liebesverbot, no original), a segunda de Richard Wagner – e renegada por ele, que sequer chegou a vê-la subir à cena. Composta quando Wagner tinha apenas 21 anos e até hoje raramente encenada, a obra foi classificada pelo próprio compositor  como ‘uma grande ópera cômica´. No entanto, por muito tempo, ficou conhecida no métier como ´ópera maldita´ devido aos tropeços que marcaram as tentativas de encená-la. Na primeira, um dos tenores esqueceu a letra. A segunda quase termina em pancadaria entre os integrantes do elenco.

A montagem é uma coprodução do Colón com o Teatro Real de Madrid e a Royal Opera House, de Londres, seguindo uma tendência do teatro portenho que, em anos recentes, vem explorando o intercâmbio com  produções de outras casas de ópera, o que ajuda reduzir custos e diversificar o repertório. Este ano,  são três coproduções em uma temporada de oito montagens no Colón.

Na ópera em dois atos, já se nota o toque de gênio do compositor que iria se confirmar na maturidade, principalmente no momentos finais do primeiro ato. Mas nem de longe se antecipa o brilho que Wagner alcançaria em Tristao e Isolda, Lohengrin e na tetralogia O anel do Nibelungo.

Medida por medida

A proibição de amar’, baseada na comédia Medida por medida, de Shakespeare, se passa na Palermo do século XVI, onde o governador Friedrich impõe pena de morte aos que praticarem atos sexuais ditos pecaminosos. Em pleno carnaval, a proibição é solenemente ignorada. A partir daí, se desenvolve a trama marcada pela critica à hipocrisia e à falsa moral do governador, ele mesmo um rematado sedutor.

No palco do Colón / Foto: Arnaldo Colombaroli

A belíssima voz da jovem soprano dinamarquesa Lise Davidsen, no papel de Isabella, a noviça que se revolta contra o tirânico governador, é o grande destaque da produção.  Davidsen vem aparecendo em papeis importantes na Ópera Real da Dinamarca e ainda este ano protagoniza Ariadne de Naxos no prestigioso Festival de Glyndebourne, na Inglaterra.

O tenor dinamarquês  Peter Lodahl, no papel de Lúcio, e o baixo barítono argentino Hernán Iturralde, como o governador Friedrich, também se destacam num elenco de boas vozes.

Liberdade de criação

A direção ficou a cargo do também dinamarquês Kasper Holten,  atualmente à frente de  produções de Covent Garden, em Londres. Segundo ele, dirigir uma ópera pouco conhecida como A proibição de amar dá total liberdade de criação ao diretor,  já que o público não traz referências de outras produções e, por isso, vai ao espetáculo sem expectativa.

– Com uma peça rara, o público normalmente é mais aberto e curioso, mais disposto a ser levado em uma viagem – observou Holten em entrevista à revista Teatro Colón, publicação bimestral da casa de ópera argentina.

O diretor, de 44 anos, tem em seu currículo produções de peso para a ópera inglesa como Evgueni Onegin e Don Giovanni. Mais recentemente, foi muito elogiado pela direção de Król Roger (Rei George), do polonês  Karol Szymanowsky,  coincidentemente também ambientada no sul da Itália.

Seguindo a tendência em voga entre os alguns diretores de tentar trazer atualidade às óperas, ‘A proibição de amar’ na versão do diretor dinamarquês tem telefones celulares e laptops  em cena. Os personagens utilizam redes sociais para se comunicar.

– Melhor criar polêmica  do que provocar sono na plateia – opina  o diretor. E se tiver que escolher entre a ousadia e a mesmice, Holten não tem dúvida. – Prefiro uma apresentação irritante a uma tediosa.

A ópera fica em cartaz até 2 de maio. Serviço aqui.

Trecho da montagem no Teatro Real: