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Foto de Clara Sverner: Camilla Maia

| Clara encontra, de novo, sua amiga Chiquinha

05/11/2016 - Por Luciana Medeiros

Na quarta (23), acontece em São Paulo um reencontro em cena da pianista Clara Sverner com Chiquinha Gonzaga. Clara, responsável pela redescoberta de Chiquinha no fim dos anos 1970, está feliz: "é rever uma amiga".

 

É como ter uma amiga da vida toda. Pode-se até morar muito longe, mas quando acontece o reencontro, parece que o último contato foi no dia anterior. Clara Sverner, pianista e apaixonada pesquisadora, se sente mais ou menos assim em relação a Francisca Edwiges Neves Gonzaga, a Chiquinha Gonzaga (1847-1935). E elas se reencontram agora, dia 23/11: o Sesc Pinheiros, em São Paulo, promove uma noite exclusivamente dedicada à interpretação dos tangos, valsas e polcas de Chiquinha pelas mãos de Clara.

– Chiquinha me persegue – brinca a pianista. – Ela está sempre na minha vida. E é um presente, ninguém fez melodias tão lindas, sendo ao mesmo tempo bem humorada, inteligente, engajada em causas como a Abolição e a República. Sem falar na liderança da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, que ela ajudou a fundar.

A música de Chiquinha foi uma descoberta para Clara Sverner em 1979, quando ela preparava um disco com diversos compositores da virada do século, Panorama da Música de Salão. De Chiquinha, havia quatro partituras em mãos.

– De repente, me deparei com um tesouro sob a guarda de Edinha Diniz, a biógrafa da compositora. Fiquei boba. Havia mais de mil peças, umas 250 só para piano. O disco virou todo dela, e foi uma redescoberta geral.

Clara gravou nove faixas (“inclusive um tango com nome engraçadíssimo, Day-break ainda não morreu; ela tinha dessas piadas, títulos loucos com os de Satie”) e fez um segundo LP. Em 1998, a TV Globo produziu uma minissérie com Regina Duarte no papel da compositora.

– Baixou uma Chiquinha em mim, ousada. Gravei um CD e lancei, com a cara e a coragem. Estourou! A música dela, não me canso de dizer, é magnífica. Ela ainda exercia um papel de cronista da época, com peças tais como a valsa O Animatógrapho, falando sobre a chegada do pré-cinema. Tinha uma relação linda com o Carnaval e o choro. Era uma feminista avant la lettre, que viveu um amor tardio com um jovem rapaz, com uma liberdade interna fantástica.

No recital do dia 23, Clara – uma pioneira também, que estabeleceu importantes e inéditas e pontes entre a música clássica e a popular, redescobriu outros compositores como Glauco Velasquez – vai mostrar ao público algumas peças que ela nunca gravou, como as polcas Sultana e Dejanira.

– Na verdade, com esse convite do Sesc, fui mexer de novo no material e estou vendo que dá para gravar mais uns quatro discos. Parece que sou tomada pela Chiquinha; me pedem muito para voltar a gravar a música dela. Quem sabe? Ela está sempre presente. E me protege.

Natural, Clara. É assim com as grandes amigas.

 

Serviço do recital aqui. Ouça a interpretação de Clara para Atraente.