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Soldados nas ruas em fevereiro de 1917

| Cem anos da Revolução Russa e a música: história, estética, conteúdo

03/02/2017 - Por Irineu Franco Perpétuo

"O evento histórico que originou o país dos sovietes continua ressoando no Terceiro Milênio. (...) A música russa obteve protagonismo inédito no século XX, graças a compositores cuja vida foi afetada pela Revolução de 1917"

 

A URSS acabou há um quarto de século, porém o evento histórico que deu origem ao país dos sovietes continua ressoando no Terceiro Milênio, como demonstram todas as publicações e debates acadêmicos que estão previstos para 2017 – inclusive aqui no Brasil.

Surgida no cenário internacional de forma relativamente tardia, na segunda metade do século XIX (quando o mundo descobriu, quase simultaneamente, o encanto das partituras de Tchaikóvski e dos romances de Tolstói e Dostoiévski), a música russa obteve um protagonismo inédito no século XX, graças a compositores cuja vida foi afetada, em maior ou menor grau, pela Revolução de 1917.

A primeira consequência imediata foi a partida de algumas das maiores estrelas musicais do país. Membro de família aristocrática, Rachmaninov (aqui em imagens e voz) teve sua propriedade tomada pelo novo regime; emigrou em 1918 e, no Ocidente, diminuiu bastante as atividades de composição, dedicando-se essencialmente à performance (afinal, agora precisava se sustentar).

Stravinsky (aqui falando da Sagração da Primavera), que fizera sucesso em Paris, abrigava-se da I Guerra Mundial na Suíça e só regressaria à terra natal em uma turnê, em 1962, durante o período do chamado “degelo”, de Nikita Khruschov.

Prokófiev (aqui ao piano e falando) viajou com permissão do governo, em 1918; nunca rompeu com a URSS, que continou visitando com regularidade, para por fim regressar às vésperas do período mais brutal da repressão stalinista, em 1936 (para alguns, por oportunismo: Prokófiev observara que, enquanto Rachmaninov era o compositor russo mais célebre nos EUA, e Stravinsky, o mais famoso na Europa, ele mesmo poderia ser o compositor russo de maior destaque na Rússia).

Chostakovich, Meyerhold, Mayakovsky, Rodchenko

Na época da revolução, Chostakóvitch (aqui falando de sua sétima sinfonia, e tocando um trecho), por seu turno, tinha apenas 11 anos de idade em 1917. Assim, ele foi o primeiro grande compositor russo cuja formação e carreira transcorreram integralmente dentro do Estado nascido da Revolução Bolchevique. De caráter confessional, e com forte apelo emocional, sua música funciona como uma crônica dos tempos soviéticos, refletindo não apenas as vicissitudes pessoais do compositor e sua relação difícil com as pressões oficiais, como também os sofrimentos de seus compatriotas e a escala épica das glórias e tragédias vividas por sua nação.

Produção moscovita de ‘Vitória sobre o sol’ (2013)

Tantos talentos brilhantes e díspares, obviamente, não surgiram do nada. Os dez dias que abalaram o mundo colheram a Rússia em uma época de especial efervescência criativa, da poesia de Maiakóvski ao cinema de Eisenstein, passando pela fotografia de Ródtchenko, pelas pinturas de Malévitch, Kandinsky, Chagall – e por muita música. A confluência das artes parece ter encontrado sua melhor expressão na ópera Vitória sobre o sol, de 1913, com libreto do poeta “transmental” Krutchónykh, prólogo do também poeta Khlébnikov, cenografia de Malévitch e música de Mikhail Matiúchin (1861-1934) – é possível ver uma produção moderna do espetáculo aqui.

Como pode ser constatado, embora Scriabin (que aqui pode ser ouvido tocando suas composições), dono de um misticismo visionário e uma imaginação exuberante extremamente típica do simbolismo russo, que era apenas um ano mais velho do que Rachmaninov, tenha falecido um pouco antes da Revolução, em 1915, seu experimentalismo parece ter ecoado nos compositores radicais que atuaram nos primeiros anos da URSS.

Cartaz da Sinfonia das Sirenes

Não são nomes que sejam muito executados hoje em dia, quer na Rússia, quer no Ocidente, e que costumam ser abrigados sob a denominação genérica de “futurismo russo”. Cabem aí, por exemplo, Nikolai Róslaviets (1881-1944; aqui, seu poema sinfônico para coro e orquestra Komsomolía [membro da Juventude Comunista], de 1928, proibido por razões ideológicas; Aleksandr Mossolov (1900-1973; aqui, Fábrica. Música das Máquinas, episódio sinfônico do balé Aço, de 1927); e Arsiêni Avraámov (1886-1944), cuja Sinfonia de Sirenes, coordenando diversos ruídos, como apitos de fábricas e navios e buzinas de carros, além de coros cantando hinos revolucionários, chegou a ser tocada no quinto aniversário da Revolução Russa, em 1922, em Baku.

Um evento público e oficial acolhendo a arte de vanguarda só seria possível nos primeiros anos da URSS. Em breve, a arte cairia sob estrito controle do Estado, e teria que ser “compreensível para as massas”. A solução para os compositores experimentais seria partir. Arthur Lourié (1892-1966), que fora assessor do primeiro Comissário do Povo para Educação (equivalente, hoje, a ministro da Educação e Cultura), Anatoli Lunatcharski, emigrou em 1922, fazendo amizade com Stravinsky (há quem veja em seu Concerto spirituale, de 1929, uma antecipação da célebre Sinfonia dos Salmos).

Herdeiro do misticismo de Scriabin, Nikolai Óbukhov (1892-1954) emigrou para a França, e criou um instrumento eletroacústico pioneiro, chamado cruz sonora, que pode ser ouvido em seu Terceiro e último mandamento. Para o mesmo país foi Ivan Wyschnegradsky (1893-1979), compositor microtonal – aqui, um breve documentário a seu respeito, em inglês.

Já os EUA acolheram Joseph (Ióssif) Schillinger (1895-1943), que criou um sistema próprio de composição (explicado aqui, em inglês), e colaborou com Lev Termién (1896-1933), mais conhecido pela versão ocidentalizada de seu nome, Léon Theremin, que acabou batizando um exótico instrumento musical que ele explica aqui.

O fato é que, depois da morte de Lênin, em 1924, e o subsequente fortalecimento do poder de Stálin, qualquer tipo de debate estava virtualmente banido da URSS. “Formalismo” virou algo como um palavrão; o Estado aprofundava o controle das artes não apenas em questões de conteúdo, como ainda de forma.

Em 1934, o Congresso de Escritores da URSS enunciava a doutrina estética que deveria ditar as linhas da produção cultural do país dali por diante. Em sua fala durante o evento, Jdánov dizia que, “em nosso país, os principais heróis das obras literárias são os construtores ativos de uma nova vida”, e que a literatura da URSS estava “impregnada do entusiasmo e do espírito de feitos heroicos”, e era “forte em virtude do fato de servir uma nova causa – a causa da construção socialista”. Nascia o assim chamado “realismo socialista”.

É consequência disso Bagunça em vez de música, o célebre editorial do Pravda condenando a ópera Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk, de Chostakóvitch, em 1936. Ou ainda o Primeiro Congresso de Compositores da URSS, em 1948, que condenou o formalismo dos principais compositores atuantes no país na época: Prokófiev, Chostakóvith, Khatchaturian, Chebalin, Miaskóvski, Popov.

Com a morte de Stálin e a subida ao poder de Khruschov, esses compositores e suas obras foram reabilitados, no processo de relativa liberalização conhecido como “degelo”. Porém, a subida ao poder de Brejnev, em 1964, acabou com esse curto e limitado verão da liberdade de expressão.

Desde então, todo compositor visto como “vanguardista” era, quando não perseguido, pelo menos marginalizado. Vários dos autores que a Rússia só viria a descobrir de verdade depois da perestroika de Gorbatchov tiveram que ganhar a vida escrevendo trilhas de desenhos animados. Caso de Alfred Schnittke (aqui na animação Bailarina no Barco), Sofia Gubaidúlina (em Mowgli) e Mieczyslaw Weinberg, cuja música para a animação As Férias de Bonifácio o violinista Gidon Kremer incluiu como bis em sua turnê brasileira do ano passado.

Contudo, o compositor de maior renome na Rússia de hoje não foi ninguém perseguido pelo regime comunista, mas sim um nome que ganhou prêmios e ocupou postos de comando nos tempos da URSS: Rodion Schedrin, viúvo da mítica bailarina Maia Plissétskaia (que aqui pode ser vista dançando a versão de Schedrin da Carmen, de Bizet) , cuja música é constantemente tocada, gravada e promovida pelo todo-poderoso maestro Valery Gergiev, do Teatro Mariinski, de São Petersburgo. A estética de Schedrin parece reivindicar a continuidade da linha evolutiva de Prokófiev e Chostakóvitch e, nesse sentido, sua música talvez seja a que ainda traga para o terceiro milênio reverberações e ressonâncias dos acontecimentos da Revolução de 1917 e do país por ela criado.