|

O violoncelista se apresenta no Rio em novembro e está com agenda cheia para 2017. /Foto: Divulgação

| Antonio Meneses faz 60 anos e namora a MPB para celebrar a data redonda

03/10/2016 - Por Luciana Medeiros

O violoncelista, que toca hoje (8/SP) e amanhã (9/RJ) com a Orquestra Gulbenkian, prepara um ano de celebração com direito a disco e turnê com o pianista e compositor André Mehmari.

Aos 60 anos, começa a segunda infância – pelo menos, segundo o conceito japonês do Kanreki, tradicional festa para os que chegam à idade redonda. A palavra, que significa “voltar no calendário”, define a entrada em um novo ciclo, com direito a festa com balões e roupinha de criança para o aniversariante.

Pois Antonio Meneses, o maior violoncelista que o Brasil já teve, está aquecendo as turbinas para celebrar um novo ciclo em 2017 – sem roupinha de criança, mas disposto a se divertir e a experimentar. Antonio planejou um tempero diferente para o ano, indo além dos concertos e recitais pelo mundo. Ele marca a data com a realização de um projeto especial: disco e turnê em duo com André Mehmari, pianista e compositor celebrado da nova geração da MPB. No repertório, “um pouco de cada um”, revela Meneses, pelo telefone, de Basel, na Suíça, onde mora.

– Ele está me ensinando a fazer a música dele e eu, trabalhando com ele a minha música. O repertório está quase fechado: Sem Você, de Tom Jobim, a Serenata do Adeus, de Vinícius de Moraes, o Gran Tango, de Piazzolla, a Toccata em Dó, de Bach, além de peças do André como Suite Brasileira e Aurora.

Honrado e entusiasmado

Meneses, que tocou no Rio dia 26 de agosto em duo com Cristian Budu, volta ao Brasil em novembro, para concertos com a Orquestra Gulbenkian, sob a regência do americano Lawrence Foster, dando prosseguimento à turnê começada em Lisboa e que chega a São Paulo (Cultura Artística) e ao Rio (Theatro Municipal,Dell’Arte). No programa, o Concerto para Violoncelo em Ré menor, op. 37, de Édouard Lalo. Ele aproveita também para mergulhar nos ensaios com Mehmari.

– Vamos gravar em janeiro, no maravilhoso estúdio que ele montou na Serra da Cantareira, em São Paulo.

O encontro dos músicos se deu em 2015, quando a Filarmônica de Minas teve Antonio como solista e, no mesmo programa, apresentou uma peça encomendada a André, Divertimento. O jantar pós concerto deu a partida ao projeto – “de fôlego”, segundo o compositor.

– Começamos a falar da possibilidade, brincando que nossas iniciais são iguais, AM – conta Mehmari, nascido em Niterói e criado em Ribeirão Preto. – Faço 40 anos em 2017, ele faz 60. E eu sou um admirador de longa data do Meneses, um fã. Pois no dia 2 de janeiro de 2016 recebi um email dele confirmando o interesse. Fiquei honrado e entusiasmado. A ideia de escrever uma suíte brasileira para cello e piano… só de pensar, a imaginação voa. E estou desafiando Antonio com um arranjo para o agilíssimo e divertido choro André de Sapato Novo, de André Victor Corrêa.

Cruz e Meneses na gravação do Cd Kodaly-Cassado, Inglaterra 2015

Cruz e Meneses na gravação do Cd Kodaly-Cassado, Inglaterra 2015

Mais um disco e as Suítes de Bach na Osesp

Além do disco e da turnê ainda sem datas fechadas, Antonio tem marcada a gravação de mais um CD em janeiro, com Claudio Cruz à frente da Northern Sinfonia, orquestra de Newcastle com a qual a dupla já gravou o trabalho indicado ao Grammy 2012.

– Claudio Cruz é o meu regente, fazemos música há 25 anos e existem poucos músicos com quem me entendo tão bem – aponta o cellista. – A Orquestra Jovem do Estado de São Paulo, que ele dirige, é um projeto maravilhoso, já tocamos juntos. Nós vamos gravar o Concerto de Schumann e outras duas obras ainda não definidas.

A oportunidade de ouvir Meneses mergulhar na integral das Suites para Violoncelo de Bach – pedra fundamental do instrumento – vai também ser um presente do músico e da Osesp para quem estiver nos arredores da Sala São Paulo em outubro de 2017. Antes do evento principal, em que ele toca com a Orquestra “o eterno concerto de Dvórak”, ele conta, tocará duas suítes a cada dia.

– São três récitas, em dias seguidos. Vamos fazer esse recital numa sala diferente.

Ensinar e tocar

É um ano de novidades, mas também de consolidação do Meneses professor. Lecionar tem sido, diz ele, “cada vez mais interessante”.

– Eu observo que cresceu muito meu prazer em ensinar, tanto na universidade de Berna, onde dou aulas há seis anos no curso de formação, quanto num novo formato que há um ano venho experimentando, na Accademia Walter Stauffer em Cremona. São aulas mensais de outubro a maio, para jovens instrumentistas talentosos, que recebem bolsa. Além de mim, há um time que inclui [Salvatore] Accardo e [Bruno] Giuranna. Estou adorando esse formato.

Por outro lado, o panorama da música clássica no Brasil, em especial no Rio de Janeiro, é uma tristeza para o músico pernambucano-carioca – ele veio com menos de dois anos para o Rio. Na sua visão, um público tradicional emagrecido, que caminha para a extinção, e um público que ainda não foi conquistado são a realidade do país hoje.

– Foram cancelados muitos concertos que eu daria no Brasil esse ano. Vejo com muita preocupação a agonia da Sinfônica Brasileira, uma orquestra de importância e tradição. Mas atribuir tudo à crise econômica é uma atitude muito reducionista. Na verdade, nosso ambiente cultural vem há muitos anos tirando a importância da música clássica, desde a saída da educação musical das escolas até a redução das notícias do que está acontecendo na área. Voltar a ensinar música nas escolas poderia ajudar muito, mas a longo prazo. Precisamos de mudanças que funcionem logo. Plateia sempre haverá. É a maneira como você leva o produto ao público que tem de mudar. Não sei como, mas tem.

Interessar um novo público pelas obras de Bach, Beethoven, Stravinsky, Prokofiev, será possível?

– Tem que ser. Porque são obras-primas. Ponto.