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Foto: Stefano Aguiar

| “Água-forte: justiça e encantamento”

07/11/2016 - Por Arthur Dapieve

Lançado pelo selo A Casa, o CD 'Água-forte', em que o Duo Groisman-Barancoski interpreta seis obras de Ricardo Tacuchian para dois pianos, piano a quatro mãos e piano solo.

 

dapieve-3x4Não é trajetória incomum para um compositor contemporâneo: juventude nacionalista e neoclássica, seguida de paixão fulminante pela vanguarda, arrematada pela superação dialética da maturidade. O que há de incomum no carioca Ricardo Tacuchian (1939) é como as pontes com o público sobreviveram até na fase intermediária de sua carreira e como a síntese atual também não se conforma em oferecer mais do mesmo.

O recém-lançado CD Água-forte ilustra bem o segundo ponto, o da síntese, e oferece uma referência ao primeiro, o das pontes. Nele, o duo formado por Miriam Grosman e Ingrid Barancoski interpreta obras de Tacuchian para dois pianos, piano a quatro mãos e piano solo. Elas nos oferecem cinco peças dos últimos dez anos, inéditas em disco, e uma peça mais antiga, da década de 1970. O disco sai pelo selo A Casa, produzido pelo também compositor Sergio Roberto de Oliveira. Do encarte, consta texto de Manoel Corrêa do Lago, membro da Academia Brasileira de Música.

capa-cd-tacuchian-internaA exceção tocada pelo duo Grosman-Barancoski se chama Estruturas gêmeas e foi escrita em 1978, por ocasião da morte da compositora Esther Scliar. “Resolvi colocar dois pianistas, lado a lado, como se fossem gêmeos, uma vez que me sentia um irmão gêmeo espiritual de Esther”, escreveu Tacuchian no encarte de outro CD, Estruturas (1999), dedicado à sua música de câmara mais experimental, e na qual a peça teve sua primeira gravação, pelas mãos de Maria Helena Andrade e Sônia Maria Vieira.

Estruturas gêmeas não exatamente cria um contraste – porque nunca se constitui em exemplo de uma vanguarda impenetrável – e sim estabelece uma perspectiva para as faixas escritas desde 2006. Apesar do caráter elegíaco, ela não renuncia a um certo ludismo, com o duo Grosman-Barancoski se espelhando ao teclado. No CD, a obra foi colocada bem no meio de quatro peças que fazem parte de uma série maior, inspirada pelas artes visuais: Grafite, Água-forte, Tapeçaria e Azulejos. A primeira, para piano a quatro mãos; a segunda, para dois pianos; e as duas últimas, para piano solo.

Essas quatro peças representam a singular síntese da maturidade de Tacuchian: breves elementos dissonantes afloram em melodias de caráter quase popular, isto é, de alta comunicabilidade, que às vezes remetem ao início nacional-neoclássico da sua carreira. A última a ser composta, Grafite, do ano passado, é um bom exemplo. Fez-me pensar, pela convivência entre o etéreo e o frenético, entre o lirismo e a explosão, em Debussy e Prokofiev passeando de braços dados pelas ruas brasileiras. Já Tapeçaria, de 2011, piano solo de Miriam, lírica, bucólica, quase romântica, remeteu-me ao Tom Jobim dos últimos discos, reconstrutor de outra ponte, entre o clássico e o popular.

Encerram o CD as dez miniaturas para piano solo da série Este verão eles chegaram, dedicada ao neto do compositor, Eduardo, de quatro anos de idade. As nove primeiras peças – ou movimentos, por se tratar de um todo coerente – foram inspiradas em características de animais que fazem parte da paisagem do Rio: Os saguis, As jacupembas, Os camaleões, As tartarugas, Os quatis, As lulas, As capivaras, Os bem-te-vis e As garças. A última miniatura se inspirou no próprio neto: Eduardo chegou.

São todas relativamente lentas, podendo ainda dispensar o uso de pedais e pensando na interpretação por pianistas jovens, como o célebre Album für die Jugend, de Schumann. (Ao mesmo tempo, por estabeleceram uma paisagem sentimental da cidade, dialogam com Saudades do Brazil, de Milhaud.) São todas ternamente bonitas, valorizadas pela empatia de Miriam com a obra de Tacuchian. Em seu duo junto à parceira Ingrid, ela faz de Água-forte um gesto de justiça e de encantamento.