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| A triste pavana – o cancelamento da Oficina de Música de Curitiba

11/01/2017 - Por Etel Frota

"Que se admita o equívoco, e se mantenha um consolidado evento musical de verão – o maior do país - para o qual a cidade aprendeu a se preparar e se engalanar com suas melhores cores".

 

  A Oficina de Música de Curitiba, evento anual que se repetiu ininterruptamente desde 1983, sofreu, ao longo de seus 34 anos, periódicas ameaças de cancelamento pelos políticos em suas trocas de guarda. Era o maior festival de verão de música do Brasil, esse nosso país que, embora tão maltratado, segue sendo reconhecido no mundo inteiro pela excelência de sua produção musical. Sobreviveu a todas as cíclicas crises que a administração pública municipal atravessou nessas mais de três décadas.  Foi abraçada pela cidade, num congraçamento sem partido nem ideologia, o que lhe subtraiu o potencial de capitalização política. Talvez tenha sido esse ressentimento, o de não poder ninguém se arvorar a dono dela, que a tenha transformado em alvo preferencial de manobras políticas, ao longo de sua história.

Quem passou da bravata à ação, no final das contas, foi Rafael Greca de Macedo, afeito a exibições públicas de sua erudição, amante confesso das artes, possivelmente o candidato que, na triste história da política brasileira recente, mais vezes utilizou a palavra “alegria” no discurso que o reconduziu, nas últimas eleições, à prefeitura de Curitiba, cargo que já ocupara no período 1993-1997. A 35ª edição da Oficina foi por ele definitivamente enterrada, sob a alegação de que o dinheiro destinado e aprovado pela Lei Orçamentária Anual do Município de Curitiba para 2017, ainda na gestão de Fruet, seria transferido por decreto municipal para a “manutenção da Farmácia Curitibana”.

(Quem quiser bem usar nove minutos do seu tempo, assista em vídeo toda a gloriosa história do falecido evento, no belíssimo trabalho jornalístico dos CRISES:  Cristiano Castilho e Cristina Seciuk.)

Quando a decisão foi tomada, as equipes de transição das administrações Gustavo Fruet e Rafael Greca já trabalhavam juntas havia mais de 30 dias. Uniram-se a comunidade artística, o Icac (Instituto Cultura e Arte de Curitiba, a organização social gestora da Oficina), a Fundação Cultural de Curitiba e uma parcela de curitibanos contra o discurso que tentava apresentar à opinião pública uma contraposição artificial entre música (“Alegria”) e saúde (“Dor”). Ficava clara a natureza política do cancelamento. Outras intenções, só o tempo e um olhar vigilante sobre os desdobramentos poderão vir a esclarecer quais seriam.

Resumindo: no início de dezembro, em sua primeira manifestação pública sobre o assunto, Greca falava em  R$ 2 milhões que, redirecionados da Música para a Saúde, trariam a felicidade geral da nação. Nas semanas subsequentes, a natureza dos valores foi se elucidando. Havia já uma parcela quitada da pré-produção, havia patrocínios acertados pelo Icac (Instituto Cultura e Arte de Curitiba, organização social gestora da Oficina). A administração que estava de saída noticiou que deixara provisionada a parte dos recursos que lhe cabia. Novos patrocínios surgiram. No apagar das luzes da gestão Gustavo Fruet, restaria à administração empossada desembolsar um pouco mais de R$ 400 mil para que o evento abrisse suas portas, dali a sete dias.

Não houve negociação real da equipe de transição de Greca. Fez-se ouvidos moucos a toda e qualquer proposta de partição dos gastos e de prazos. Em 19 de dezembro, Rafael Greca gravou uma entrevista (publicada no blog da Gazeta do Povo treze dias depois, em 1º de janeiro, data em que assumiu a prefeitura) em que dizia: “a ‘Cultura’ perversa que quer fazer os outros sofrerem não vingará, enquanto eu for o amoroso prefeito”. E três dias depois, uma canetada do governo do estado repassava R$ 4 milhões à Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba.

O fato é que a comunidade musical esteve, desde sempre, de acordo com o prefeito quando ele afirma suas prioridades: saúde pública, educação e segurança. A Oficina de Música de Curitiba tem sido um evento que promove a Educação, com letra maiúscula. Levou o nome de Curitiba para o mundo inteiro, como sinônimo de cidade que investe em excelência musical.  Movimenta o turismo, ‘esquenta’ a economia municipal, numa época do ano em que a cidade ‘perde’ moradores e visitantes. Cursos, concertos magistrais, bolsas de estudo, inclusão, encontros e trocas culturais irrepetíveis: por três semanas, há 34 anos, Curitiba é a vitrine – para o Brasil e para o mundo inteiro – das tão prestigiadas música e hospitalidade brasileiras. Tudo isto custa 0,019% do orçamento municipal.  É desrespeitoso reduzir isso a “uma pavana fúnebre para alemães e europeus que vêm passar o verão em Curitiba se divertirem, se distraírem, enquanto o nosso povo não tem médico nem remédio”, conforme declarou Greca na mesma entrevista.

Ao cancelar um evento a menos de um mês de seu início, a prefeitura  irá arcar com multas das passagens compradas e hospedagens reservadas para professores. Ninguém se responsabilizará, é bom que se frise, pelas despesas similares já contraídas pelos 1.800 alunos, entre os quais jovens da Lituânia, França, Holanda, e outros países da América do Sul (quase 10% dos inscritos).

É razoável supor que ocorram demandas de indenização por parte de profissionais que fecharam suas agendas, contratados que foram para lecionar na Oficina. Parece certo que, aos cofres públicos, o caldo sairá mais caro que o peixe. A credibilidade do Icac, organização social que firmou os contratos, está para sempre maculada. A reputação da Oficina de Música de Curitiba, conquista árdua, de décadas de trabalho de alguns visionários, está desmantelada. Entre todas as perdas e danos, essa é a mais absolutamente irreversível.

O discurso band-aid do adiamento da Oficina para outra época do ano não estanca a sangria. Uma oficina de música em Curitiba em outra data, com outro conceito, outra agenda, outra produção, será outra oficina.

Que se admita o equívoco, e se mantenha o que existe: um consolidado evento musical de verão – o maior do país – para o qual a cidade aprendeu a se preparar e se engalanar com suas melhores cores. As fases Erudita e Popular com suas harmonias e tribos diferentes e confluentes, a encher as ruas da outrora fria Curitiba com alegria, essa palavra tão prezada pelo prefeito. Mas que seja a mais genuína alegria, aquela do cluster da afinação dos instrumentos, nos segundos anteriores ao levantar da batuta que sinaliza o primeiro acorde da sinfonia. A real apoteose da música, a que acontece na fruição dos encontros,  na contemplação dos andaimes da criação e execução.  Curitiba mostrando aos meninos e velhinhos das suas Ruas da Cidadania que música é algo que eles também estão aptos a fazer – na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença.  Que os Faróis do Saber – cartão de visita da primeira administração Greca – possam iluminar para a cidade um futuro de menos mediocridade e cinismo, de mais grandeza e generosidade.

 

Etel Frota, 64, paranaense de Cornélio Procópio, vive em Curitiba desde 1980. Foi professora, bancária, depois médica, até 1998. Desde então, se apresenta como escritora: poeta, letrista, roteirista, dramaturga, romancista, roteirista. Produtora e apresentadora de rádio, colaboradora da Folha de S.Paulo. Teve seu primeiro contato com a criação musical e literária como aluna da 12ª Oficina de Música, em 1994. 

 

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