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OSB (Foto Cícero Rodrigues) e o compositor

| A palavra do compositor

14/10/2016 - Por Rodrigo Cicchelli

O carioca Rodrigo Cicchelli revela os caminhos da composição de sua peça que terá estreia mundial dia 23 de outubro, pela Sinfônica Brasileira - que incluem memória, citação e homenagem.

 

Uma das alegrias, talvez das maiores, para um compositor é ver sua peça tomar vida. Quando uma grande orquestra é quem sopra essa vida, existe um lugar especial onde a alegria se instala. Estou muito feliz com a notícia de que a Orquestra Sinfônica Brasileira fará, dia 23 de outubro, a estreia de minha peça para orquestra de cordas intitulada À noite, um homem sozinho procura se recordar. A regência está a cargo de Lee Mills.

À noite, um homem sozinho procura se recordar é a peça de abertura de um ciclo que estou compondo, denominado Música Noturna, centrado na orquestra de cordas. As outras peças do ciclo são Concertino Noturno; Sonhos Vívidos; The darkest hour; e A Aurora de Róseos Dedos.

Como o título sugere, a obra  trata da memória. Ainda que não seja uma peça programática no sentido estrito, busco nela retratar alguém que, no recolhimento noturno, procura se recordar de algo que ama, mas de que aparentemente se esqueceu.

Completei em julho cinquenta anos de idade. Quis refletir musicalmente a respeito dos exercícios da lembrança, da autoanálise e da introspecção, de forma a dar vazão a diversos sentimentos, muitas vezes contraditórios, e aos acertos e enganos, certezas e incertezas, avanços e recuos, excitações e desvãos de alguém que procura ao mesmo tempo retomar o fio da meada e olhar para frente com segurança e otimismo.

Deu-se algo curioso no processo de composição desta obra. Mais ou menos na metade da peça, emerge um motivo de segunda menor descendente seguido de uma quinta justa descendente (dó-si-mi). Este motivo me perseguia, como uma ideia fixa. Logo identifiquei tratar-se de uma versão transposta do motivo com que Villa-Lobos abre seu ciclo coral Bendita Sabedoria, que eu cantara no Coral Pró-Arte cerca de 30 anos atrás!. Como estava tratando do tema da memória, resolvi absorver esta coincidência/citação/homenagem (ou seria um roubo?) no tecido da composição.

Há, porém, mais uma curiosidade sobre este motivo: ele é usado na abertura de outra peça célebre, em outra transposição. Trata-se do Prelúdio Op.3 No.2, de Rachmaninoff, onde o motivo é lá-sol#-dó#; em Villa-Lobos, mib-ré-sol e em minha composição dó-si-mi. Os tratamentos são muito diferentes nas três peças, mas há algo de misterioso e profundo nesta ideia musical que resolvi reter e “passar adiante”.

Contrariamente ao que o título poderia insinuar, a peça não foi composta em circunstâncias solitárias, mas em calorosa companhia familiar. Agradeço também aos amigos especialistas Daniel Guedes, Tomaz Soares, Angelo Martins, Déborah Cheyne, Paulo Santoro, Ricardo Santoro, Fabio Presgrave e Ernani Aguiar, que olharam diferentes versões do manuscrito e cujos comentários me foram de grande valia.

 

Rodrigo Cicchlelli (foto; Angelica de Carvalho)

Rodrigo Cicchelli (foto: Angelica de Carvalho) é compositor, flautista e Professor Titular do Departamento de Composição da Escola de Música da UFRJ. Graduou-se em Composição Musical e em Flauta Transversa pelo Instituto Villa-Lobos da Unirio. Foi também aluno de César Guerra-Peixe e de Hans-Joachim Koellreutter. Pós-graduado na Europa nos anos 1990, fez Doutorado na University of East Anglia na Inglaterra com bolsa da CAPES e Especialização no IRCAM de Paris como bolsista do governo francês. Sua produção composicional vem sendo premiada no Brasil e no exterior. Além de suas atividades acadêmicas e artísticas, Rodrigo Cicchelli produz e apresenta o programa radiofônico Eletroacústicas, que vai ao ar toda quarta-feira à meia-noite pela MEC FM (99.3 MHz).