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Foto: Divulgação / No detalhe, Claudio Santoro

| A obra para piano de Claudio Santoro – por Pablo Marquine

28/06/2017

O pianista está gravando a integral dos prelúdios para piano do compositor e se apresenta no Rio

 

 

Houve poucos músicos e compositores como Claudio Franco de Sá Santoro (1919-1989). Um gênio, que como bem descreve Gisèle Santoro, viúva de Santoro, “a música explodia dele, como a lava sai de um vulcão”. Ele foi, sem dúvida, um dos mais prolíficos, inquietos e polêmicos compositores da história da música brasileira.

Claudio Santoro produziu uma obra singular e que hoje representa a força e tradição da música erudita brasileira. Seu catálogo abarca mais de 600 composições, entre elas 14 sinfonias, obras de câmera, uma ópera, obras solo para diversos instrumentos e também peças orquestrais. Mas um trabalho tão extenso e de valor imensurável para nossa cultura não recebe o espaço de destaque merecido.

É preciso exaltar o trabalho de Claudio Santoro como imperioso  na história da música brasileira. O maestro vivenciou a inquietude de um século de profundas transformações sociais, cujas influências se encontram no caráter estético de sua obra musical. Ao longo de sua produção, é possível identificar sete períodos estéticos distintos – como a influência do impressionismo musical francês, serialismo dodecafônico, a transitoriedade entre a técnica dodecafônica e a fase neofolclórica de influências da cultura nacional brasileira. Retornou ainda ao serialismo idiossincrático e vivenciou o experimentalismo e técnicas de vanguardas com as obras eletroacústicas e a aleatoriedade, além de ter provado de idiossincrasias e síntese estética dos períodos precedentes.

Sua obra é objeto de muitos estudos, mas ainda há poucos trabalhos com profundidade sobre o compositor que é reconhecido mundialmente. O compositor carece ainda de uma biografia oficial e, ainda mais, de bibliografias descritivas (ou bibliografias com notas), trabalhos acadêmicos que condensam e informam os principais trabalhos com descrição metodológica e que refletem a contemporaneidade da pesquisa sobre o mesmo. É preciso manter viva a história e memória da obra de Claudio Santoro.

Durante meu mestrado em Musicologia na Universidade de Brasília, que teve como objeto as diferentes fases de composição do músico, notei que ainda não existia um registro da obra para piano solo do maestro. Há muitas sonatas e prelúdios de Claudio Santoro gravados, masem não  sua totalidade ou em caráter de obra integral.

No último ano me dediquei ao projeto “Claudio Santoro: Obra Completa para Piano”, uma coletânea com a obra completa do compositor para piano. Minha contribuição vai além da gravação da obra e abrange, também, uma reflexão crítica de edições das partituras que será finalizada no pesquisa do Doutorado em Musicologia. Como investigador, ao mergulhar nas partituras e obra do autor, tento absorver ao máximo sua essência.

O projeto nasceu como uma homenagem a vida e obra do compositor e que culminará no centenário de seu nascimento a ser celebrado em 2019. O primeiro volume (no total de três), “Claudio Santoro: Obra Completa para Piano Solo. Volume I – Prelúdios”, apresenta 39 prelúdios para piano solo de Claudio Santoro, dos quais sete são inéditos.

Será o primeiro registro de todos os prelúdios, os quais exemplificam a densidade e diversidade estética do discurso musical inerente à obra deste grande compositor brasileiro. O lançamento do álbum está em turnê nacional: já passou por Brasília, São Paulo e chega ao Rio de Janeiro no dia 28 de junho, no Conservatório Brasileiro de Música.

 

*Pablo Marquine é pianista, iniciou os estudos ao piano aos cinco anos de idade e se identificou profundamente com a obra do maestro e compositor ainda criança. Teve formação pela Escola de Música de Brasília, Bacharelado e Mestrado na Universidade de Brasília, e atualmente cursa o Doutorado na University of Florida, cujo tema de sua pesquisa é a obra completa para piano de Claudio Santoro.