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Fiorella com alunos da ONG

| Uma ação pela música e pelos jovens

03/10/2016 - Por Luciana Medeiros *

A violoncelista Fiorella Solares batalha há vinte anos à frente da ONG Ação Social pela Música, que já melhorou a vida de dez mil jovens

O prédio, no alto da ladeira que dá acesso ao Morro dos Macacos, Zona Norte do Rio, foi, décadas atrás, sede de uma organização espírita chamada União dos Discípulos de Jesus. Está semiabandonado,mas ao se vencer o primeiro lance de escadas já se ouvem flautas, violinos, clarinetas e uma massa orquestral ao fundo. Ali funciona um dos núcleos da ONG Ação Social pela Música no Brasil, fundada em 1994. O trabalho da ONG já atingiu mais de dez mil jovens, moradores de comunidades, que através da música mudaram suas rotinas, seus horizontes e, no fim das contas, suas vidas.

A “mãe” do projeto é a guatemalteca Fiorella Solares, que entra no segundo andar do prédio já recebendo abraços e beijos de alunos, monitores e professores. Radicada no Brasil há 37 anos, ela nunca abandonou a visão de que a música é um motor que faz o indivíduo e,
consequentemente, a sociedade avançar. O trabalho ganhou força com a pacificação das favelas cariocas, com a instalação de UPPs a partir de 2009. Mas Fiorella está temerosa.

– Para nós fez muita diferença a chegada das UPPs, foi uma grande oportunidade. Mas a situação vem mudando para pior – ela diz. – A ocupação social que deveria ter sido feita não aconteceu, e não adianta entrar com força policial sem consolidar esse outro lado.

Crianças e adolescentes deste polo estão em plena atividade. Mas nesse dia um número menor de alunos apareceu, diz a coordenadora do núcleo, Rita Spíndola.

– É que teve tiroteio de manhã, muita gente não veio por medo.

A dura realidade não apaga, porém, a beleza da iniciativa. Nos corredores do prédio, só se veem sorrisos e orgulho. Turmas de violino, clarineta, flauta – algumas com apenas dois alunos, outras com dezenas – se dividem nas salas. No fundo, o som é de grande orquestra, soando forte mesmo por trás de uma porta fechada.

Fiorella gosta de dizer que o projeto ajuda a mudar trajetórias, mas quem mais se transformou foi ela própria. Violoncelista, tocou em orquestras na América Latina – no Rio, esteve nas estantes do Theatro Municipal e da Petrobras Sinfônica. A vida nos palcos foi perdendo
importância quando abraçou o sonho do marido, o maestro David Machado, de democratizar a música clássica.

– David era muito conhecido e havia entrado em contato com o maravilhoso projeto que ensina música clássica para 700 mil crianças e jovens carentes: El Sistema. Montamos a primeira unidade em Campos dos Goytacazes.

Instrumento e cesta básica

De coadjuvante, ela foi obrigada a assumir o protagonismo quando David morreu, em 1995. Fiorella estava grávida de dois meses da única filha. E decidida a manter o rumo. Mas não foi fácil emplacar a ideia em grande escala. A vida de musicista ficou para trás.

Aula de clarineta

         Aula de clarineta

Vinte anos depois, o projeto Ação Social pela Música está firmemente plantado. Só no Rio, tem sedes em quatro regiões (Chapéu Mangueira, Morro dos Macacos, Cidade de Deus e Complexo do Alemão). Os alunos, entre seis e 18 anos, são apresentados na chegada a seis instrumentos: violino, violoncelo, viola, contrabaixo, flauta e clarineta; depois de escolherem seu preferido, os meninos e meninas seguem uma rotina de três horas de aula durante três tardes da semana. Cada núcleo tem duas orquestras, a de iniciantes e a dos mais avançados. O curso tem, além das aulas de música, vivências de conjunto orquestral, reforço escolar e também a oferta de uma cesta básica para as famílias. Serviço completo.

–As chances de que uma criança desocupada se envolva com o mundo do crime são grandes.  Aqui nós ocupamos as tardes e damos uma linguagem, uma expressão. A proposta não é prioritariamente a de descobrir músicos, mas sim a de valorizar essas pessoas, fomentar a autoestima. O orgulho que esses jovens sentem quando estão em uma sala lotada, com todos batendo palmas para eles, é uma coisa mágica.

O coordenador pedagógico, Julio Camargo, reforça:

– A proposta metodológica do projeto não visa à formação de músicos profissionais, mas oferece às comunidades desfavorecidas o acesso à manifestação artística como recurso de inclusão e participação social, fazendo da arte um instrumento da paz. Os alunos aprendem a
se comprometer, aprendem a importância da dedicação, do empenho, perseverança, generosidade, respeito, responsabilidade. Acima de tudo, amor próprio, para com os outros, o ambiente, a vida.

Orquestrando

Numa salinha lateral, a aula é de teoria e harmonia, ministrada por uma simpática professora de sotaque paulista – na verdade, uma das maiores autoridades no ensino de música do país, Marcilda Clis, que vem de São Paulo toda semana e, além de ensinar o básico, prepara jovens para o vestibular de música. A última sala finalmente abre as portas para a reportagem e o ótimo som da orquestra enche a sala – tocam Mozart, Vivaldi, Piazzolla e encerram com Sivuca.

A Orquestra do Núcleo do Morro dos Macacos ensaia sob a batuta de Jean Molinari

A Orquestra do Núcleo do Morro dos Macacos ensaia sob a batuta de Jean Molinari

Os músicos se divertem, ensaiando sob a batuta do também muito jovem Jean Molinari. Com 23 anos, formado em regência pela Escola de Música da UFRJ aos 21, ele rege os grupos sinfônicos de dois núcleos – o do Moro dos Macacos e o do Vale do Cuiabá, em Itaipava.

– Quando a garotada chega ao projeto, vive uma revolução no gosto musical e também no comportamento – atesta Jean, que vem de uma família musical de Vila Valqueire, subúrbio do Rio. – Além de dar aulas, a equipe está sempre pronta a trabalhar a questão emocional,
reforçar o sentido da coletividade.

Fiorella conta que aquele núcleo está especialmente complicado e que a ONG está buscando com urgência outro ponto nas proximidades, já que a presença ostensiva do crime no morro vizinho cresceu a ponto de receberem uma visita que “solicitou” a desocupação do prédio.

Fim da tarde. A saída começa tranquila e é interrompida pela correria das crianças – de volta ao prédio. “Começou o tiroteio de novo, entra, entra!”. Uma parte dos alunos recua; outros saem colados ao muro. A van do projeto recolhe alguns alunos e os jornalistas. Mais tarde,
Fiorella contaria que muita gente teve que aguardar horas até a situação acalmar.

– Estamos trabalhando e torcendo para que apareça outro local aqui perto do Morro dos Macacos. Mas por enquanto, tocar em frente mesmo com as dificuldades – encerra.

*colaborou Marina Lemos Gonzaga