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Montagem com imagens de campanha dos candidatos

| A música e a ópera nos planos dos candidatos à Prefeitura do Rio

17/10/2016 - Por Equipe Tutti

Os dois Marcelos, Crivella e Freixo, que disputam a gestão da segunda maior cidade brasileira, dizem o que pensam da música clássica e da ópera na vida carioca e explanam as políticas culturais que pretendem implementar

 

Os cariocas voltam às urnas neste dia 30 de outubro para decidir quem comandará a cidade pelos próximos quatro anos. Tutti Clássicos enviou perguntas aos dois candidatos à Prefeitura do Rio para saber o que pensam e pretendem realizar na área cultural, de uma forma geral, e também como se posicionam sobre questões específicas ligadas à área da música clássica, que costuma ficar fora de debates mais amplos.

Aqui você vai ler que ambos escutam este repertório – mas não destacaram nenhuma obra ou aprofundaram qualquer  aspecto -, que pretendem ajudar a manter viva a Orquestra Sinfônica Brasileira e têm planos para a Cidade das Artes. As perguntas foram enviadas e respondidas por email.

Por critério de ordem alfabética, as respostas do candidato Marcelo Crivella (PRB) antecedem as do candidato Marcelo Freixo (PSOL). Vamos a elas – e que a gente possa cobrar esse olhar para o setor.

 

Tutti Clássicos: Qual sua relação com a música clássica e a ópera? O senhor tem interesse pessoal nos gêneros artísticos? Se sim, alguma(s) obra(s) em especial?

Marcelo Crivella: Gosto muito de música clássica. Na verdade, como cantor e compositor, gosto de todos os gêneros musicais. Sou um entusiasta e apreciador de música. Tenho predileção pela Música Popular Brasileira (MPB), pelo samba, pela música brasileira que é muito rica. Mas ouço os clássicos também, os grandes compositores como Mozart e Chopin.

Marcelo Freixo: Quero desde já parabenizar e desejar todo o sucesso para esse novo portal, o Tutti Clássicos, que vai servir para que possamos nos aprofundar na música clássica e na ópera, dois elementos culturais importantíssimos em todo o mundo. Eu gosto muito de ouvir música clássica e tenho um interesse grande em me aprofundar muito mais.

TC: O senhor pretende manter a Secretaria de Cultura como órgão independente, sem fundi-la à Educação ou ao Turismo?

Marcelo Crivella: Sim. A Secretaria de Cultura será mantida como um órgão independente ligado diretamente ao Prefeito, sem fusão com nenhum outro órgão ou Secretaria.

Marcelo Freixo: Ao contrário do que diz o outro candidato, nós vamos manter a Secretaria de Cultura. Quem acha que vai economizar acabando com a Secretaria de Cultura não entende nada de cultura nem de economia. Nós vamos articular as políticas públicas de Cultura com outras como a de educação e turismo, por exemplo. Os secretários de Cultura e Educação devem conversar constantemente.

TC: Quais as principais políticas públicas para a área que o senhor destacaria?

Marcelo Crivella: É meu compromisso destinar para a Cultura, pelo menos, 1% do orçamento da Prefeitura. Quero também avançar com o programa Vale-Cultura para que pessoas de baixa renda possam frequentar qualquer cinema, teatro ou casa de espetáculos da cidade de acordo com seu próprio interesse. É meu desejo garantir que toda comunidade da cidade com uma população superior a 20 mil pessoas tenha uma sala de cinema da prefeitura que exiba os mesmos filmes que passam nos grandes cinemas da cidade. Vamos levar cultura aonde as pessoas não têm acesso a ela. Por último, quero estabelecer um compromisso de assumir as Bibliotecas-Parque que o Estado hoje não consegue manter nas comunidades.

Marcelo Freixo: Vamos fortalecer o Conselho Municipal de Cultura dando-lhe estrutura e capacidade de deliberar sobre as políticas públicas de cultura da cidade. Outra proposta é ampliar os Pontos de Cultura em todos as regiões da cidade, começando pelas zonas Norte e Oeste. Queremos também integrar as políticas de cultura e educação para transformar as escolas em polos de preservação da memória dos bairros e promoção da cultura popular. Vamos aprofundar também a formação de plateias para a música clássica, por exemplo. É fundamental que tanto a música clássica quanto a música popular carioca, como o samba e o choro, sejam ensinadas nas escolas, por exemplo.

TC: O senhor pretende criar algum projeto similar ou complementar ao Vale-Cultura federal, que visa garantir acesso da população à produção cultural?

Marcelo Crivella: Sim, conforme disse na resposta anterior. Precisamos dar acesso à cultura a quem não pode arcar com os custos de ir a uma sala de cinema, a um teatro, uma casa de show. A cultura é um importante instrumento de transformação. O contato com a arte pode revelar diversos talentos. Temos que estimular esses talentos nas crianças, nos jovens e até nos adultos. As escolas de samba são o melhor exemplo disso. Vemos os desfiles, a criatividade, a beleza das fantasias. Isso é um patrimônio do Rio de Janeiro. A prefeitura tem que incentivar ainda mais esses talentos.

Marcelo Freixo: Vale-Cultura é um projeto interessante. Mas sozinho não resolve o problema da desigualdade que existe no que se refere ao acesso à produção cultural na cidade. Nosso maior desafio será implementar uma política de Educação Integral na rede municipal de educação e integrar as políticas de arte e cultura com os programas de educação para transformar as escolas municipais em pólos de produção de pensamento crítico, promoção da cultura popular e preservação da memória dos bairros. A rede municipal do Rio é a maior da América Latina: são cerca de 1.500 escolas e creches que estão espalhadas pela cidade. Essa integração entre educação, arte e cultura pode ajudar a ressignificar o espaço público e mudar a relação dos moradores com suas comunidades.

TC: O município mantém hoje a lei de de incentivo cultural, através do ISS. O senhor pretende manter incentivos dessa natureza? Há algo mais em vista para incentivar a produção cultural?

Marcelo Crivella: manter e ampliar esse incentivo. Temos que cortar os gastos supérfluos da máquina pública, mas a produção cultural é uma vocação da cidade – não pode sofrer nenhum tipo de corte de gastos ou retração de incentivos. Para isso, é importante dialogar com quem faz e produz cultura no Rio. São muitos segmentos e vamos ouvir cada um deles. Antes de buscar soluções, precisamos ouvir. Já me reuni com artistas, com as escolas de samba, estive em comunidades como o Alemão, a Rocinha, por exemplo, que têm uma produção cultura riquíssima e que precisam de mais equipamentos como oficinas de artes, de dança, teatro, escolas de músicas. Serei um incentivador da cultura.

Marcelo Freixo: Vamos não só manter como aprofundar as políticas de incentivo para a produção cultural. Queremos aumentar os investimentos, facilitar o acesso, reduzir a burocracia e prestigiar os artistas locais. Cultura não é apenas espetáculo, cultura é direito.

TC: A Prefeitura manterá o apoio à Orquestra Sinfônica Brasileira, a mais tradicional orquestra do País, que passa por séria crise financeira e corre risco de acabar?

Marcelo Crivella: A Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) é um patrimônio do país. A Prefeitura do Rio de Janeiro vai fazer parte da solução dos problemas pelos quais passa a OSB, vai mobilizar a sociedade, ampliar essa discussão com outras instâncias de governo e ajudar diretamente ou buscar patrocinadores privados. O que não podemos é deixar a OSB perder o seu lugar na música erudita do país, que é um lugar importantíssimo. Vamos montar um calendário que utilize melhor a Cidade das Artes e o Teatro Municipal numa parceira com o Estado. Temos que aprender com a experiência de outros países e até mesmo com a OSESP.

Marcelo Freixo: A OSB é um patrimônio da cidade do Rio de Janeiro e não pode acabar de jeito nenhum. Vamos sentar e conversar para ver como a prefeitura pode ajudar a Orquestra a superar a crise. A manutenção dos recursos pode vir acompanhada, por exemplo, com uma boa contrapartida educacional e, claro, sempre zelando pela transparência e prestação de contas. A administração da Orquestra tem que fazer uma gestão que atenda também à demanda dos músicos e trabalhar junto com eles. Não podemos concordar com a demissão em massa de músicos como aconteceu em 2011, por exemplo.

TC: A Cidade das Artes, quando foi originalmente criada, seria a nova sede da Orquestra Sinfônica Brasileira. No entanto, na prática, isso não aconteceu de forma plena. A OSB paga um aluguel anual para ensaiar no local. O senhor pretende rever isso? E quais os planos para a Cidade das Artes?

Marcelo Crivella: Claro que vamos rever. A Cidade das Artes é um dos maiores exemplos de como brigas e picuinhas políticas podem prejudicar a cidade e gerar desperdício de recursos que deveriam estar sendo revertidos em projetos culturais para a população. A Cidade das Artes está subutilizada e precisa ter uma programação diversificada o ano todo, que atenda diferentes segmentos e que conte também com o apoio da iniciativa privada. Precisamos atrair shows com grandes artistas do Brasil e do exterior. Como disse antes, é fundamental ouvirmos quem faz cultura para fazermos juntos um planejamento para a cultura de forma geral.

Marcelo Freixo: Vamos criar melhores condições para a OSB ensaiar no local. E vamos transformar a Cidade das Artes em um centro de referência em pesquisa, ensino e produção cultural.

TC: Muito além de formar músicos profissionais ou especialistas na área, a Educação Musical auxilia no desenvolvimento cultural e psicomotor, estimula o contato com diferentes linguagens, contribui para a sociabilidade e democratiza o acesso à arte. Por isso, a Música passou a ser conteúdo obrigatório em toda Educação Básica em 2012, de acordo com a Lei nº 11.769, de 18 de agosto de 2008. No entanto, a Lei não foi implementada nas escolas. O senhor pretende que ela passe a ser, de fato, adotada? De que maneira?

Marcelo Crivella: Seria importantíssimo. Se é lei, tem que ser cumprida. Temos que entender o que aconteceu e levar música às crianças. Sou suspeito para falar de música porque ela já me deu muita coisa boa na vida. As aulas de educação musical tem que estar dentro do ensino em horário integral. Manter a criança na escola, levar outras atividades, fazer com que ela entre em contato com esse lado lúdico da educação. Isso é muito importante.

Marcelo Freixo: Claro! É fundamental o ensino de música nas escolas. Não só o ensino da música em si, que é essencial para a formação de novos músicos, como também a história da música brasileira e carioca. Isso ajuda a criação de laços da escola com o seu bairro. Uma escola na Serrinha, em Madureira, que fica na Rua Silas de Oliveira, tem que ensinar quem foi esse compositor, por exemplo. Villa Lobos tem que ser ensinado nas escolas.

TC: Os projetos de integração social através da música são uma potente ferramenta para levar estabilidade e autoestima a crianças e jovens carentes. O senhor conhece algum? Pensa em alguma iniciativa nesse sentido?

Marcelo Crivella: O projeto que construí em Irecê, no sertão da Bahia, é um exemplo de sucesso. Em um das áreas mais carentes do Brasil construímos a Fazenda Nova Canãa, um projeto que há 14 anos levou oportunidade para milhares de pessoas. São 600 crianças em horário integral, com transporte escolar, refeição na escola, esporte, lazer, cultura. É um modelo de desenvolvimento social do qual me orgulho muito. Temos no Rio diversos projetos sociais (públicos, privados e em parceria) que visam melhorar a autoestima dos jovens e das crianças cariocas através da música e das artes em geral. A maioria deles é muito efetivo. Eles diminuem muito o risco de perdermos nossos jovens para o tráfico de drogas e ainda nos fazem descobrir grandes talentos como é o caso do Nós do Morro, por exemplo. A prefeitura deve buscar ser sempre uma importante parceira nesse tipo de projeto social.

Marcelo Freixo: Estive recentemente na Serrinha e pude conhecer a Casa do Jongo. Lá existe uma possibilidade de músicos da região levarem pra frente projetos sociais que possam disputar a garotada que hoje está nas mãos do tráfico, por exemplo. Queremos disputar essa garotada e fazer com que troquem as armas por violinos, cavaquinhos e violões.