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Maria Sole (foto de divulgação) entre D. Pedro (pintura de Simplício de Sá) e Domitila (tela de 1830)

| A Marquesa de Santos chora sua despedida no Theatro São Pedro

10/02/2017 - Por Luciana Medeiros

'Domitila', ópera de câmara de João Guilherme Ripper, ganha nova montagem na casa paulistana dias 11 e 12, com entrada franca

 

No palco do Theatro São Pedro, uma mulher sofre por amor. Mas não é qualquer mulher: Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos, é, além de amante do imperador do Brasil, uma espécie de eminência parda do poder. Só que as convenções da corte estão no meio do caminho. E ela sofre.

O compositor João Guilherme Ripper destacou da história do Brasil esse poderoso momento para criar a pocket ópera que sobe ao palco do Theatro São Pedro, em São Paulo, neste fim de semana, dias 11 e 12 de fevereiro, com entrada franca, às 17h. A direção é de Paulo Esper.

Criada em 2000 para a série Cartas Brasileiras do CCBB Rio, projeto foi idealizado por André Heller, que dirigiu a primeira montagem. O libreto se estrutura sobre cartas e bilhetes trocados entre D. Pedro e Domitila, “numa ordem dramática, não necessariamente cronológica, criando ligações musicais entre eles”, diz o compositor.

– A ação se passa no dia da despedida da Marquesa de Santos, forçada pela corte a deixar o Rio de Janeiro para que D. Pedro pudesse casar com D. Amelia – explica Ripper. –  A maior parte da correspondência que encontrei vem de D. Pedro, mas usei também a pungente e sarcástica carta de despedida escrita pela Marquesa ao deixar o Rio. Ela termina a ópera.

A peça foi dedicada à soprano Ruth Staerke, que encarnou a Marquesa na estreia, ao lado do grupo formado por piano, cello e clarineta. Dessa vez, a montagem celebra a soprano e professora Heidi Lazzarini (1939-2003), importante figura no desenvolvimento do canto lírico em São Paulo, além de marcar a abertura do ano do centenário do Theatro, em meio a um panorama ainda toldado por incertezas. E tem no palco a cantora italiana radicada no Brasil – e integrante do elenco estável do São Pedro – Maria Sole Gallevi.

– Domitila, nesta ópera é uma polifonia de emoções – define Maria Sole. – Ela é marcada por uma paixão profunda, tempestuosa (eu diria sturm und drang) e infeliz. É correspondida no amor, mas sofre com a impossibilidade de viver a plenitude do relacionamento pelas rígidas convenções sociais.

A ópera é definida pela cantora como “metade canção de câmera, metade ópera”, um desafio que vai além de dar vida à protagonista.

– A Marquesa está interpretando um personagem que não está presente, o que aumenta ainda mais esse desafio.

Além das cartas e bilhetes, Ripper usa também um poema seu: o texto da ária Diga em quantas linhas.

– Aqui, Domitila lamenta o amor que só se anunciava nas cartas mas nunca se concretizava – diz o compositor.

Acompanhada por Alexsander Ribeiro de Lara (piano), Daniel Oliveira (clarinete) e Boaz de Oliveira (violoncelo), Maria Sole conta que seu próximo projeto faz um “casamento” entre ópera e o jazz.

– O trânsito entre os gêneros não é difícil quanto ao aspecto emocional, interpretativo – na ópera e no jazz se sofre! Quando canto jazz, tento incorporar aspectos do canto erudito como o controle das dinâmicas, afinação, precisão. Quando canto música erudita, tento buscar a leveza de um novo improviso.

Professora de canto erudito e jazz e técnica vocal no Conservatório Berklee-Souza Lima, em São Paulo, seu último projeto foi em torno de Billie Holiday e Edith Piaf, junto com o pianista e compositor Guilherme Ribeiro Tomando.

– Estou escolhendo algumas árias de ópera para colocá-las na chave do jazz, fazendo o caminho inverso do Apesar dos estilos vocais e musicais muito diferentes, Piaf e Holiday expressavam na música suas vidas problemáticas, muitas vezes através de uma melancolia na voz.

 

SERVIÇO

Ópera de Câmara  Domitila, de João Guilherme Ripper

Elenco:
Maria Sole Gallevi | soprano /  Alexsander Ribeiro de Lara | piano /  Daniel Oliveira | clarinete / Boaz de Oliveira | violoncelo

Paulo A. Esper | direção cênica

Duração: 60 minutos

11 e 12/02, às 17h

Entrada Franca

Theatro São Pedro

Rua Dr. Albuquerque Lins, 207 – São Paulo

Telefone: (11) 3661.6600

636 lugares

www.theatrosaopedro.org.br