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Estátua de Stradivarius / Foto: Jean Marc Schwartzenberg

| A Itália em três tempos musicais – Veneza, Parma e Cremona

14/09/2017 - Por Jean Marc Schwartzenberg

Um passeio pela Itália durante o verão - quando a música se muda das salas de concerto seguindo os roteiros alternativos dos festivais típicos da estação

 

 

O verão do hemisfério norte é sinônimo de poucas opções musicais de qualidade. As salas de concerto e os teatros mais tradicionais estão quase todos fechados, dando vez aos festivais de verão, geralmente longe das grandes cidades.

Quem viaja à Europa nesta época precisa, portanto, procurar alternativas de viver a música fora das salas de concerto. E o norte da Itália é pródigo em opções, sejam elas museus ou casas dedicadas a algum artista ou compositor.

Veneza

La Fenice

Veneza tem uma sólida tradição operística, em grande parte graças ao mítico Teatro La Fenice, tantas vezes incendiado e renascido das cinzas. A cidade foi palco de estreia de inúmeras óperas – de Monteverdi a Bellini, de Rossini a Verdi. E, já no Século 20, de Stravinski, Berio e Nono.

Mas a cidade respira Vivaldi – e a um ponto que chega ao ridículo: todos tentam capitalizar “vendendo” Vivaldi para os turistas de massa, e o que se vê por toda a cidade no verão são cartazes anunciando As Quatro Estações em letras garrafais: concertos, muitos deles em trajes de época, com fins apenas comerciais e dirigidos exclusivamente a um público não iniciado.

Mas o flâneur acidental, perdido pelas vielas venezianas, poderá se deparar casualmente com a igreja de San Giovanni in Bragora, onde Antonio Vivaldi (1678-1741) foi batizado. Uma charmosa igrejinha fora do circuito das multidões, frequentada pela população local, com um suave fundo musical de gravações de Vivaldi – felizmente além das Quatro Estações. Numa parede lateral, emoldurado, o certificado de batismo do compositor.

Parma

Come-se divinamente em Parma, e muito além do queijo e do presunto. Bebe-se igualmente bem, e barato: o Lambrusco da região, leve e borbulhante, é um prazer a qualquer hora do dia.
Mas esta cidade com ar de interior tem também um passado rico em história. Fortemente impregnada do espírito de Verdi (1813-1901), nascido na região, Parma mantém um bem documentado Museu da Música, com cartazes e figurinos históricos do grande teatro da cidade, o Teatro Ducale – que mais tarde se tornaria o Teatro Reggio di Parma.

Um dos maiores orgulhos culturais de Parma é Arturo Toscanini (1867-1957). Sua casa natal é hoje um museu cativante, com objetos pessoais, farta documentação e a exibição contínua de um ótimo filme sobre a vida deste que muitos consideram o maior maestro do século XX. Uma casa cheia de vida, uma visita imperdível.

Cremona, a Meca dos Violinos

É indispensável reservar um dia para conhecer Cremona, cidade natal de Stradivarius, mas também das famílias Amati e Guarneri. Entre os séculos XVI e XVIII, estas três famílias moldaram toda a arte da fabricação de instrumentos de cordas – um legado que permanece até hoje.

À parte uma estátua e alguns nomes de ruas, não restaram muitos testemunhos materiais das três famílias na cidade. Uma lápide numa pracinha do centro indica o local onde foi enterrado Antonio Stradivari, hoje conhecido como Stradivarius (1644-1737). Mas, apesar das transformações urbanas, Cremona não esquece seu passado e criou o Museu do Violino. Mantido pela Fondazione Stradivari, com generosas doações de industriais da região, é um museu amplo, interativo, que oferece uma fascinante viagem por todas as facetas do violino. É preciso tempo para apreciar inteiramente seu rico acervo de instrumentos de cordas de todas as épocas, bem como a parte que explica, didaticamente e com a ajuda de um áudio guia, todo o processo de fabricação do instrumento. O ponto alto do Museo del Violino é o solene “Cofre dos Tesouros”, uma sala escura e aveludada onde ficam exibidos, em delicadas caixas de vidro, alguns dos maiores exemplos da arte dos luthiers cremonenses.Visitando Cremona descobre-se ainda que esta atividade continua se renovando: a Fondazione Stradivari organiza um concurso trienal de jovens luthiers do mundo inteiro, e a cidade conta hoje com dezenas de ateliês ativos. Um artesão francês organiza visitas guiadas a seu ateliê, sob reserva.

Cremona é ainda dona de um belo e imponente Duomo (catedral) e, não menos importante, local de nascimento de Claudio Monteverdi (1567-1643) outro dos orgulhos desta pequena cidade, parada obrigatória para os amantes da música.

Informações:

Teatro La Fenice, Veneza: teatrolafenice.it
Local de batismo de Antonio Vivaldi: sgbattistainbragora.it
Casa natal de Toscanini, Parma: museotoscanini.it
Museu da Música, Parma: lacasadellamusica.it