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Apocalipse Now /Foto:Divulgação

| A cavalgada do apocalipse

9/3/2017 - Por Barbosa Chaves

Prelúdio da ópera de Wagner no filme de Coppola é um dos exemplos mais criativos do uso da trilha sonora no cinema

 

“I love the smell of napalm in the morning” (eu amo o cheiro de napalm de manhã) é uma das frases mais marcantes do cinema. Nela, o tenente-coronel Bill Kilgori, interpretado por Robert Duvall em Apocalipse Now (Francis Ford Copolla, 1979), expressa a crueza da guerra do Vietnã e o embrutecimento dos envolvidos noconflito. Entre várias cenas brutais do filme, a mais emblemática é, certamente, a que mostra um esquadrão aéreo americano bombardeando um vilarejo vietnamita ao som de A Cavalgada das Valquírias, da ópera A Valquíria, segunda da tetralogia O Anel, do alemão Richard Wagner.

Apesar de muito tocada como peça de concerto, Wagner proibiu por muito tempo que ‘A Cavalgada’ fosse apresentada separadamente do resto da ópera. Não adiantou muito. Ao lado do Coro (ou Marcha) Nupcial, de Lohengrin, é um dos temas mais conhecidos do compositor. E tornou-se ainda mais popular depois do efeito espetacular da cena de Apocalipse Now.

O próprio Copolla declarou em várias ocasiões que a música foi usada para amplificar o sentimento de horror e os dilemas morais da guerra que provocou protestos em todo o mundo e produziu algumas das imagens mais emblemáticas do século XX.

– Em um filme que é uma tremenda crítica à insanidade de uma guerra sem sentido como a do Vietnã, o uso de uma ópera para aquela constelação de helicópteros impulsiona a narrativa e ressalta a espetacularização do bombardeio – observa o crítico de cinema Marcelo Janot. Alguns críticos, no entanto, viram em Apocalipse Now a glorificação da guerra e a reafirmação da supremacia militar americana.

O filme foi baseado em Coração das Trevas, de Joseph Conrad, que narra a extenuante viagem de um marinheiro por um rio nas profundezas da selva na África colonial em busca de um comerciante de marfim. Em Apocalipse Now, a caçada concentra-se em um coronel americano renegado que comanda seu próprio exército na selva vietnamita, interpretado por Marlon Brando. As duas jornadas revelam aspectos sombrios da natureza humana e expõem as contradições dos conceitos de barbárie e civilização.

George Solti

A ideia de usar Wagner na cena do bombardeio nasceu em 1969, bem antes do filme começar a ser rodado, quando John Milius iniciou o roteiro. E foi concebida não só como trilha sonora, mas como elemento cênico, mais que isso, como parte do enredo, já que a música é utilizada como técnica de combate para aterrorizar psicologicamente os vietnamitas. Faltava, no entanto, escolher a versão que melhor se ajustasse ao ritmo vertiginoso que os roteiristas planejavam imprimir à cena.

A gravação escolhida foi a de George Solti, com a Filarmônica de Viena, de 1965. Mas a gravadora Decca, a princípio, negou permissão para que o trecho fosse utilizado. Várias versões foram testadas, mas nenhuma  agradou o editor e diretor de som Walter Murch. “Muitas delas soavam monotonamente rítmicas”, reclamava ele.

Só o andamento que Solti imprimira à Cavalgada seguia o encadeamento das imagens da cena como a equipe havia concebido. No último minuto, com o filme já na edição final, a gravadora cedeu depois que Coppola pediu a intervenção de Solti junto à gravadora. Valeu a pena a espera. O efeito foi espetacular. “O DNA da música e do filme tornaram-se inextrincavelmente unidos”, descreveu Murch em um artigo de 2015 para uma revista americana. De fato, a simbiose perfeita entre os acordes wagnerianos e as imagens do ataque a posições vietnamitas ao som de Wagner explodindo nas caixas de som presas aos helicópteros entrou para história do cinema. E ainda hoje causam forte impacto, um misto de horror e êxtase.

A Cavalgada das Valquírias, em Apocalipse Now, é um dos melhores e mais criativos exemplos de uso de trilha sonora na história no cinema. Além disso, é perfeito o contraste com o momento de silêncio absoluto na saída da escola do pequeno vilarejo. Sem a música, a cena perderia muito de seu impacto – reforça Janot.

Viagem ao inferno

A Cavalgada das Valquírias é o prelúdio do terceiro ato da ópera que estreou em Munique, 1870, contra a vontade do compositor, que preferia que a obra fosse levada ao público junto com as outras três que compõem a tetralogia. Em tom marcial, representa heroísmo ao mesmo tempo em que serve de alegoria para uma viagem ao inferno dos campos de batalha. Em cena, as Valquírias, virgens guerreiras voando em cavalos alados, carregam os corpos mutilados dos guerreiros para Vanhalla, o majestoso salão da mitologia nórdica para onde são levados os que tombam em combate.

Em Apocalipse Now não há Vanhalla, nem deuses nórdicos, muito menos redenção no martírio. O que não impediu que fosse considerado um dos melhores filmes de guerra de todos os tempos. Ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1979, mas perdeu o Oscar de melhor filme no ano seguinte. Ficou apenas com as estatuetas de melhor mixagem de som e fotografia.

A cena do assalto dos helicópteros em meio a rajadas de metralhadoras e explosões de napalm ficou para a posteridade. E não datou (veja abaixo). Já a justificativa moral para esse e outros horrores da guerra, de tão frágil, desaparece rapidamente na espessa fumaça negra que sobe do vilarejo em chamas ao som de Wagner.

Confira o trecho do filme aqui: