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| 2017 – o ano do quase silêncio no clássico do Brasil

02/04/2017 - Por Naief Haddad

Atividades interrompidas, orquestras reduzidas, teatros com orçamentos minguados. As perspectivas são sombrias no que diz respeito à manutenção da música clássica por todo o país

 

O ano de 2017 não começou bem para parte expressiva das formações de música erudita no Brasil, a começar pela maior cidade do país. Em São Paulo, a Banda Sinfônica do Estado chegou ao fim. Na manhã do dia 9 de fevereiro, os 64 integrantes do grupo foram demitidos.

Banda Sinfônica do ESP / foto: Julian Lepick

O desmonte da Banda Sinfônica não foi exatamente uma novidade: desde pelo menos dezembro de 2016, os músicos temiam pelo encerramento das atividades.

Criado em 1989, o grupo se caracterizava pelo predomínio dos instrumentos de sopro e percussão.

Em nota enviada ao Tutti Clássicos, a Secretaria do Estado da Cultura afirmou que a “Banda Sinfônica poderá ter suas atividades continuadas como meta condicionada (cumprida mediante a captação de patrocínio ou ao descontingenciamento dos recursos) e mediante outras formas de contratação”.

De acordo com o órgão, “a medida, necessária diante do quadro de recessão nacional, visou à preservação do orçamento destinado ao Projeto Guri, programa sociocultural que atende 53 mil crianças, em cerca de 300 municípios, com o ensino gratuito de música. A abrangência e a relevância social deste programa foram levadas em consideração na escolha das prioridades da Secretaria”.

Os integrantes da Orquestra Jazz Sinfônica e da Orquestra do Theatro São Pedro, também vinculadas ao governo estadual, temem cortes, o que a Secretaria da Cultura não confirma —tampouco nega.

“Com relação aos outros dois corpos estáveis [Jazz e São Pedro], possíveis ajustes, se houver, serão pautados tecnicamente pelas respectivas direções artísticas, a quem compete especificar o número de músicos necessários, uma vez que este dado não é estabelecido no contrato de gestão celebrado com a Secretaria da Cultura”, afirma o órgão, na mesma nota.

A apreensão entre os músicos se acentua justamente no ano em que o Theatro São Pedro, localizado na bairro da Barra Funda, alcança seu centenário.

      Theatro São Pedro, em SP / Divulgação

Ainda de acordo com a secretaria, o Instituto Pensarte tem contrato para gerenciar o Theatro São Pedro até o final de abril. Até lá, estão programadas três óperas —uma delas foi O Espelho, de Jorge Antunes, inspirada no conto de Machado de Assis. Também estão previstos dois concertos da orquestra do teatro e ainda apresentações dentro das séries Tardes de Canções e Tardes de Ópera.

Passado o mês de abril, uma organização social (OS), a ser escolhida pelo governo estadual, assumirá o São Pedro e definirá o restante da programação.

Interior paulista

Curiosamente, no mesmo dia 9 de fevereiro em que a Banda Sinfônica teve suas atividades encerradas, o prefeito Felício Ramuth (PSDB) anunciou o fim da Orquestra Sinfônica de São José dos Campos.

Criado em 2004, o grupo era formado por 35 músicos. O contrato anual com a orquestra previa gasto de R$ 2,5 milhões.

“Temos dívidas de conta de água e luz. Tenho visitado UBS e faltam medicamentos básicos. Tenho que tomar atitude quanto a isso e uma é romper o contrato com a Orquestra Sinfônica da cidade. Esperamos daqui alguns anos reverter a situação e retomar para ter uma Orquestra ainda maior que a atual”,  disse Ramuth. De acordo com ele, a prefeitura herdou uma dívida da gestão anterior de R$ 306 milhões.

“Não esperávamos isso. A orquestra é um trabalho conquistado ao longo de anos. Nós conseguimos levar 9.000 pessoas para o parque para apresentação de música clássica e isso não foi um trabalho do dia pra noite”, afirmou o maestro da orquestra, Marcello Stasi, ao site G1. “O Felício tomou essa decisão em poucos dias na administração sem averiguar outras possibilidades, sem discussão. Ficamos assustados porque algo assim não se constrói do dia para a noite. É uma trajetória.”

Ex-diretor de teatros como o Municipal e o São Pedro, em São Paulo, e o Municipal do Rio, o maestro Júlio Medaglia acredita que, em geral, a classe política no Brasil ainda vê a “área cultural como algo supérfluo, perfumaria”.

Medaglia diz que “R$ 2,5 milhões  anuais para uma cidade rica é ‘peanuts’”, em referência ao fim da orquestra de São José dos Campos. “No Brasil, os governantes não sabem trabalhar com o potencial da cultura”, afirma ao Tutti.

Nesse sentido, o maestro indica Mário Covas, que governou São Paulo entre 1995 e 2001, como um contraponto. “Ao abrir a Sala São Paulo, que passou a sediar os concertos da Osesp, o nome dele se fortaleceu. Até hoje, é lembrado por isso.”

Outros Estados

Processos de cortes em orquestras não afetam, evidentemente, apenas o Estado de São Paulo.

No final de fevereiro, 27 dos 75 músicos da Orquestra Sinfônica do Paraná foram demitidos. Conforme nota enviada ao Tutti Clássicos pela Secretaria de Cultura do Estado, a decisão ocorreu porque esses “músicos ocupavam cargos comissionados. A lei que criou esses cargos foi declarada inconstitucional pelo Tribunal de Justiça do Estado do Paraná e os cargos foram extintos em 4/3/2017”.

A mesma medida foi tomada em relação a parte dos integrantes do Balé Teatro Guaíra.

De acordo com a secretaria, as atividades da orquestra não foram totalmente suspensas. Os músicos que permaneceram no grupo estão realizando os concertos programados nos projetos Teatro Guaíra Dança e Música para Todos. Essas apresentações acontecem nas cidades da região metropolitana de Curitiba.

Para a decepção dos apreciadores da música clássica em Curitiba, a retomada dos trabalhos da orquestra em sua formação completa não acontecerá em um prazo curto. O serviço Palcoparaná, criado pelo governo estadual em 2014, vai realizar uma seleção para a contratação de novos músicos. Segundo a secretaria, é provável que “até o mês de julho tudo esteja resolvido”.

Criada em 1985, a Orquestra do Paraná já teve como maestros Alceo Bocchino, Roberto Duarte e Jamil Maluf, entre outros. O atual regente é o alemão Stefan Geiger, cuja situação deve ser definida nos próximos dias.

Mais grave é a situação da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), uma das mais tradicionais do país. Criada em 1940 e com mais de 5.000 apresentações ao longo de sua história, a orquestra carioca enfrenta seu momento mais difícil.

No segundo semestre de 2016, em meio ao atraso dos salários de 180 músicos e funcionários, 12 concertos da sua série de assinaturas foram cancelados. Antes, no primeiro semestre, 11 apresentações das séries Concertos da Juventude e OSB na sala Cecília Meirelles já tinham deixado de acontecer.

Instituição privada, a orquestra tem perdido patrocinadores nos últimos anos. Também houve redução dos repasses por parte da prefeitura do Rio.

               OSB / foto: Cicero Rodrigues

Em entrevista ao jornal O Globo, em setembro de 2016, o presidente da Fundação OSB, Eleazar de Carvalho Filho, revelava otimismo. “Por incrível que pareça, passando este ano [2016] e preservando o nosso conjunto orquestral, teremos condições de fazer uma boa temporada. Temos criatividade para isso”, afirmou à época.

Não é o que acontece, contudo. Em contato recente com o Tutti, representante da OSB disse que a orquestra tinha uma “proposta de planejamento”, mas “em função da situação pela qual passamos não temos como confirmar, neste momento, a programação da OSB para esses e outros meses”.

Se comparada à OSB, a situação da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro, de Brasília, é até razoável. Composta por 70 músicos, a orquestra não teve orçamento para promoções em 2015 e em 2016, mas ao menos não houve atraso no pagamento dos seus integrantes. É o que informa, em nota enviada ao Tutti, a Secretaria de Cultura do Governo do Distrito Federal.

De acordo com o órgão, não aconteceram demissões recentemente. Além disso, está definida a programação de 2017, que inclui uma apresentação em junho no Iate Clube da cidade, com expectativa para receber 5.000 pessoas.

O problema da orquestra é a distância de “casa”, o Teatro Cláudio Santoro. Depois de alguns meses sem endereço fixo, a orquestra passou a usar para apresentações e ensaios o Cine Brasília. A mudança aconteceu em agosto de 2016.

Embora algumas adaptações tenham sido feitas na sala de cinema, como a ampliação do tablado, o local ainda é inadequado para a realização de concertos.

A data para a volta ao Cláudio Santoro é incerta. “Este prazo dependerá da reforma do Teatro Nacional, que se encontra neste momento em adequação do projeto e captação de recursos para ser licitada”, informa a secretaria.

Imprensa

Ainda segundo o maestro Júlio Medaglia, a atuação da imprensa voltada à cobertura da música clássica em um momento de extinção de orquestras ou cortes nos grupos deveria ser mais incisiva. “Nossa mídia cultural não é tão ativa quanto a política. Falta senso crítico”, avalia.

Ele lembra as denúncias de corrupção e lavagem de dinheiro no Municipal de São Paulo, que levaram ao bloqueio de bens do ex-diretor do teatro José Luiz Herencia. Menciona ainda a contratação de artistas estrangeiros _de “qualidade duvidosa”, segundo ele_ por valores acima dos recebidos pelos músicos brasileiros.

Para Medaglia, uma imprensa cultural mais atenta e bem preparada poderia ter revelado essas irregularidades no Municipal antes que viessem à tona por meio do Ministério Público.